O papa é brasileiro!

Papa Francisco
De José Luiz Boromelo:
O papa virou brasileiro, pelo menos durante os dias em que esteve por aqui. O papa Francisco fez sua primeira viagem oficial ao maior país católico do planeta trazendo consigo muitos ensinamentos para a Jornada Mundial da Juventude. Os fiéis aguardaram com ansiedade a chegada do peregrino da fé, sempre acompanhado de sua já tradicional humildade, que encanta e atrai pessoas de todas as idades. Seu jeito simples e despojado de ser, sua instigante tranquilidade e a esmerada atenção dispensada aos seus interlocutores provoca empatia imediata, característica principal dos grandes líderes da humanidade. A visita ilustre despertou as mais diferentes emoções, renovando as esperanças, a confiança e a fé de milhões de pessoas desprovidas de sentimentos outros que não o respeito ao próximo e o amor incondicional àquele que é o motivo maior de nossa existência.
Seria interessante salientar alguns aspectos dessa viagem inédita e impregnada de simbolismos. O que haveria de fixar-se na memória de Sua Santidade, vendo-se diante de uma multidão contagiada por sentimentos tão profundos, unidos por objetivos comuns e que ali buscavam além de absorver suas sábias palavras, talvez um aceno discreto, um aperto de mão ou quem sabe um inimaginável abraço? A presença de religiosos, anciãos, jovens, crianças e adultos, protagonistas de intermináveis manifestações de carinho deve ter marcado profundamente o sucessor de Pedro. Mesmo conhecedor da espontaneidade, da cordialidade natural e dos costumes do povo brasileiro pela proximidade geográfica com seu país natal, o emissário maior da doutrina católica deve ter visto muito mais que demonstrações de fé.
Certamente o Santo Padre viu de perto e sentiu na pele a inaceitável desorganização do evento, notadamente com relação a seus deslocamentos por via terrestre e principalmente na trapalhada que o levou a um congestionamento numa das vias mais movimentadas da capital fluminense. Como necessariamente possui acesso às tecnologias da informação, é de se imaginar que tenha tomado conhecimento das manifestações violentas nas proximidades do local onde ficou hospedado, mesmo que não compreenda perfeitamente as razões ali depositadas. Ou da escolha equivocada do Campo da Fé (local vastíssimo, previsto para a missa de encerramento do evento), alagado pelas chuvas. Assim como deve ter (infelizmente) notado a descortesia do presidente do Supremo Tribunal Federal ao ignorar a presidenta da República no cumprimento das autoridades ao Sumo Pontífice. Um contraste evidente, diante das intermináveis demonstrações de humildade e subserviência do eminente representante clérigo.
E o Papa falou. Falou de amor, de despojamento, de Jesus Cristo, pediu licença para bater na porta do coração dos brasileiros, inclusive e certamente na dos políticos. Ressaltou os problemas sociais que atingem o país, os compromissos cristãos, os valores morais, as idolatrias, os apegos ao superficialismo. Com estas atitudes o Papa passou uma mensagem subliminar, mas muito eficaz. De tudo o que Sua Santidade viu e presenciou nesses dias de peregrinação, certamente a maior lembrança será a de um povo fervoroso e disposto a vivenciar intensamente os preceitos divinos. Foram dias inesquecíveis, que Jorge Mário Bergoglio jamais se esquecerá. Um homem como qualquer outro, falível como um ser humano comum, mas com uma missão das mais difíceis pela frente: manter a união e a fé e levar às suas ovelhas o pão da vida e da salvação, ante as ameaças da modernidade, como deixou bem claro em suas palavras: “… não deixem que lhes roubem a esperança”. O Papa leva consigo o incansável desejo de conciliação, de renovação e de fé. Então, que leve também do Brasil a força e o otimismo da juventude, representada pelos milhões de almas que buscam a Deus através da oração, da doação e do amor. Até breve irmão Francisco, e obrigado por mostrar, com toda sua simplicidade, como é bom ser brasileiro!
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.
(**) Foto Christyam de Lima