Os limites da incompetência

De José Luiz Boromelo:
O governo brasileiro viabilizou uma medida polêmica para tentar resolver o problema da falta de médicos no país, segundo sua versão sobre o caso. A chegada dos primeiros profissionais vindos do exterior, recebidos no aeroporto pelo ministro da Saúde é uma mostra evidente que o programa tem prioridade sobre as demais iniciativas oficiais. Além da imagem midiática que a presença de altas autoridades provoca nessas situações, há que se atentar para intenções mais sutis dos dirigentes da república. Não por coincidência a medida efetivou-se num momento em que as pesquisas apontam uma queda acentuada na popularidade da presidenta. Nada mais oportuno que alavancar os números dos institutos de pesquisa com ações de impacto, tentando passar ao eleitor uma imagem de competência e desenvoltura, coisa que o governo atual não possui. No embalo dessas “importações” desregradas sobressai-se um ineditismo constrangedor, uma vez que Cuba ficará com a maior parte dos salários de seus enviados. Estaremos, portanto contribuindo involuntariamente para uma maior qualidade de vida dos ilhados “hermanos” caribenhos. Com a possibilidade de descumprimento dos dispositivos das leis trabalhistas brasileiras.
Seria interessante um aporte de médicos dessa envergadura se nossas instituições públicas e privadas de medicina não formassem anualmente um volume expressivo de profissionais, sabidamente arredios na adesão ao atendimento público de saúde. As justificativas são conhecidas de longa data e certamente se farão presentes no cotidiano dos novos contratados. A questão salarial não é fator preponderante, pois alguns municípios menores oferecem rendimentos substancialmente superiores à média da categoria, sem, contudo obterem êxito nas contratações. O que pesa na balança e determina a fixação dos profissionais em áreas populosas são as condições de trabalho. Não se pode exercer com eficiência uma atividade dessa relevância em ambientes totalmente inadequados. A lista dos problemas é extensa com hospitais, postos de atendimento e unidades de saúde superlotados; faltam equipamentos, materiais para procedimentos, estrutura física e profissionais capacitados. É nesse cenário de caos absoluto que os médicos estrangeiros irão atuar. Resta saber por quanto tempo.
Segundo o Ministério da Saúde, os profissionais recém-contratados passarão por uma preparação intensiva com duração de três semanas que inclui noções de língua portuguesa, doenças tropicais e normas do SUS (Sistema Único de Saúde), entre outros. Inicialmente, só poderão trabalhar na atenção básica da saúde, sem poder realizar procedimentos mais complexos, como cirurgias. Alguns setores da área médica se mostram totalmente contrários ao exercício da profissão por médicos “importados” em “regime de urgência”, uma vez que a reprovação de candidatos nos exames anteriores conhecidos como “Revalida” é altíssima e o requisito foi dispensado para esse grupo.
O intitulado pacto da saúde poderia ter sido efetivado com menos pirotecnia. Pressionado pelas manifestações recentes o governo tenta, a toque de caixa, resolver os problemas que há muito acompanham o brasileiro. Com sua reconhecida incapacidade de gerenciamento aliada ao gigantismo de uma máquina administrativa emperrada entre 39 ministérios, o equívoco atual fica mais evidente no momento em que se inverte a lógica dos fatos. Ao invés de sanar as carências na saúde construindo, equipando hospitais e oferecendo condições mínimas de trabalho aos médicos brasileiros o governo ataca os efeitos e não as causas. Não se conhece a formação acadêmica dos estrangeiros nem tampouco sua capacidade em diagnosticar com eficiência os casos específicos que ocorrem no país. Sem levar em consideração as diferenças culturais e as dificuldades naturais do idioma, só com muito otimismo para se acreditar numa melhoria significativa nos serviços de atendimento de saúde. Fica a impressão, mais uma vez, de que se tenta cobrir o sol com peneira. Não merecemos tamanha incompetência!
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.
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