Não fica um

ilustra

Por José Luiz Boromelo:

Na década de 1980 o irreverente sambista Bezerra da Silva gravou o que se tornaria um de seus maiores sucessos, intitulado “Reunião de bacanas”.
Com um refrão contagiante e impregnado de ironias, a letra retratava situações pitorescas que se encaixam perfeitamente nos acontecimentos da atualidade, apesar do lapso de tempo decorrido.

A crise política que assola o País remete àquela música maliciosa, sob a visão crítica do típico malandro dos morros cariocas, naturalmente excluído da sociedade por sua condição financeira: “Aqui realmente está toda a nata, senhores, doutores, até magnata”. Pois o malandro virou traficante e a nata está atolada até o pescoço em falcatruas das mais criativas e imagináveis possíveis, uma roubalheira descarada que jogou o Brasil na maior crise econômica de sua história recente.
Apesar dos esforços do Juiz Sérgio Moro e do Ministério Público Federal em responsabilizar e punir com o rigor necessário aqueles que enveredaram pelos (des) caminhos do crime, ainda há muito a se fazer para conter a sanha interminável dessa gente inescrupulosa. Prova disso são as denúncias frequentes envolvendo os “caciques” de praticamente todos os partidos. A cada dia surgem novos nomes, mostrando uma certeza: a coisa está entranhada no sistema, necessitando uma assepsia urgente e eficiente, sem prazo para sua conclusão. A mesma disposição demonstra o Procurador Geral da República Rodrigo Janot, uma evidência inequívoca de que o País está buscando (ou pelo menos tentando) extirpar a podridão há muito impregnada na política brasileira.
Todas essas ações de combate à corrupção só terão eficácia perene caso os parlamentares decidirem por uma reforma política séria e consistente. Isso demanda tempo, muito diálogo e ajustes de modo a atender satisfatoriamente as diferentes correntes políticas. Entre as mudanças a serem apreciadas (talvez a mais relevante) seria a proposta de um único mandato, para todas as esferas do legislativo e do executivo, com um tempo mínimo de afastamento do exercício do cargo público de oito anos. Essa iniciativa por si só já traria uma contribuição inestimável à sociedade (por dificultar a viabilização de possíveis interesses escusos), além de proporcionar condições efetivas para a moralização da classe política.
Por enquanto, as esperanças por dias melhores estão nas mãos da Justiça, porto seguro da cidadania e da democracia. Porque se depender de nossos nobres parlamentares, até que se prove o contrário (sem cometer a leviandade de colocar todos no mesmo saco, salvo raríssimas exceções), nada disso será aprovado. Assim, somos sugestionados a cantarolar aquele velho refrão conhecido: “Se gritar pega ladrão, não fica um”…
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.