Jornalista é premiada em concurso literário

A jornalista Kamilla Yohanna Ribeiro (foto) foi premiada no Concurso Literário de Relatos Reais: Histórias Humanas 2020. Kamilla é gerente do Gabinete, na Prefeitura de Maringá. Ela recebeu a primeira colocação (menção honrosa) pelo relato “O senhor dos sapatos”. De caráter nacional, o evento foi promovido pelo CNNE – Concurso Nacional Novos Escritores.

Foram selecionados 93 relatos de 320 inscrições no concurso literário de relatos reais, para compor o livro “Coletânea de Relatos Reais Histórias Humanas 2020”.​ A coletânea apresenta narrações de forma breve, um compartilhamento de experiências de autores estreantes na arte da escrita, que permite ao leitor reflexões e aprendizados.

Confira o texto:

O SENHOR DOS SAPATOS

     A modesta cobertura do local que une todos os pontos da cidade acomoda muita gente. Pessoas que, na maioria das vezes, são simples, sem tempo, humildes e pobres. Durante o dia, dezenas de vozes fluem no mesmo espaço, filas formadas, ora assentos livres, ora ocupados. Os doces que saltam aos olhos são conduzidos em carrinhos espaçosos e oferecidos de tempos em tempos àquela gente, parada, esperando o ônibus que os levará para o trabalho ou para casa. 

     Tem gente de sorriso fácil que não tem o feitio de menosprezar. Gente sem hesitações, disposta a bater um papo e até ajudar. Mas também tem gente que passa reto, com pressa e depressa. Gente ignorante. Gente que não sabe olhar. Ou tão somente gente que nem sequer tem tempo para desviar a cabeça, meras vítimas do capitalismo, fadadas a terem um relógio para contar o tempo, ainda assim não o ter. Gente tão sofrida que seria injusto acusar por não olhar. Gente que prioriza o olho no relógio e evita o olho no olho. Tudo o que há de mais visível no Terminal Urbano de Maringá é o que menos se nota: gente. Entre chegadas e partidas, há um homem que sempre fica por lá, mas nem sempre há quem o enxergue. Homem que escuta o silêncio dos pés, mesmo cercado de passos apressados, e que fala pelo capricho do brilho, contrariando os tons opacos da própria vivência. 
Homem cuja profissão foi esquecida no tempo e que vive há duas décadas nesse esquecimento. Homem que desde menino, aos 7 anos, soube ser um homem. Agora, com 27 e uma árdua vida, o semblante engana. Já nem sabe mais a cor das mãos. A tinta preta de graxa já se constituiu como camada na pele. A silhueta projetada na sombra não forma um tronco ereto e sadio. Junto ao corpo inclinado há um caixote, de oito a dez quilos, perfeitamente encaixado no ombro esquerdo. E assim, com a caixa no ombro, ele caminha constantemente pelo terminal. As costas caídas para frente chegam primeiro que as pernas, mesmo quando descola a caixa do corpo. Quando se senta não é para descansar. Aí é que o trabalho começa. O banco é o próprio caixote. A dureza da base é mais macia do que a ideia de conviver entre humanos, que muitas vezes, não tem humanidade.

     A cada sentar, ele se ajusta no baixo e eleva o outro, até que os pés alheios possam se hospedar alguns minutos perante as mãos impuras. A face está tão íntima dos sapatos que é possível que os pés escutem o respiro exausto. Os olhos cansados procuram as curvas de opacidade na ânsia de devolver a luz, enquanto a dinâmica dos braços se resume em um movimento firme e ao mesmo tempo gracioso. É como se, além do lustre o cliente também herdasse uma massagem. Eis as transformações. Primeiro: o homem até então por baixo, dedicado aos detalhes de um mero calçado, cresce. Engrandece a si mesmo, sem mover um músculo fora de seu espaço. O dono dos pés já não o vê com os mesmos olhos de lamento e pena. O talento é reconhecido, na maioria das vezes. Segundo: os sapatos não tocam o chão com a mesma aparência. Dessa vez, contentam os olhares. Terceiro: O homem, humilde, ensina que para ser grande não é preciso diminuir ninguém. 

      O senhor dos sapatos oferece aos outros o que não pode ofertar a si mesmo. De sapato em sapato, desgastou o próprio. Um tênis de solado fino o acompanha durante muito tempo. Mesmo assim ele protege os pés como pode, nas condições que lhe cabe. Talvez seja na quietude dos pés que se revelam os dramas de cada um. É assim que Aguinaldo Marcos Oliveira, conhecido como “Cinquentinha”, apelido que ganhou na época em que cobrança cinquenta centavos pelo polimento dos sapatos, conhece as pessoas, o diálogo é limitado ao que elas calçam. Aqueles que têm sapato de couro podem ouvir vagamente a voz discreta que tanto evita sair dos lábios. As mínimas palavras que aprendeu fogem da boca ao propor polimento. Junto aos ruídos da fala, os gestos se aliam para se comunicar em uma fração de segundos. Perguntou, respondeu. Acabou a conversa. Não tem conversa. Diante do emaranhado de rumores, as poucas vozes direcionadas a ele se confinam em “sim” e “não” ou um pouco mais que isso.

     Em meio a um cenário de muita gente, o engraxate se perdura em solidão. As relações humanas estão para todo lado. Mas o engraxate permanece só. Na inexistência de amigos, pessoas para desabafar ou somente alguém para conversar, o ato tão simples de falar se tornou algo dificultoso. Sem ninguém, ele é obrigado a guardar para si as experiências, os desejos, as histórias, os pensamentos, aquilo que há de mais profundo: a essência.

     Então, o corpo se encarrega de falar. O jeito tortuoso de andar, os passos arrastados, os ombros caídos. De longe, a boca forma linha reta, não sorri e nem chora. Os olhos só piscam, não se alegram e nem lacrimejam. Já de perto, nas raríssimas vezes que é tratado como gente normal, o arco da boca se forma e os olhos castanhos escuros brilham. Olhos que servem como janelas da alma. A profundidade do olhar é capaz de levar mais longe que qualquer palavra dita. Basta embarcar nos reflexos das pupilas e ver o avesso de fora. Um olhar que conta história. Tanto de hoje quanto de épocas passadas. No presente, apenas naquele raio de poucos metros, o engraxate revela o que enfrenta na vida. De manhã, enquanto o Sol ainda está buscado forças para esquentar o dia, ele já está na luta. Quando os raios de luz conseguem chegar com maior intensidade e esquentar à tarde, ele já venceu a luta, pelo menos aquela. Mas existem lutas maiores. Antes de ir para o lar, troca a caixa pesada por uma mochila, leve e quase vazia. Não tão vazia quanto o estômago, que implora por alimento. Já se passaram cinco horas da última vez que a dentadura mastigou algo. Um almoço doado. Dado de coração e recebido de corpo inteiro. Embora a saliva já tenha se acostumado com as poucas companhias. Para chegar em casa depende do ônibus. Só embarca ao sinal do motorista certo, que o orienta qual ônibus deve ir e qual hora deve descer. Esse sinal demora horas. Sim, horas. Quando chega ao ponto ainda é dia, mas quando embarca a Lua já está à vista. O ponto de partida começa em frente a um mercado, o que o faz lembrar da fome. A janta custa a chegar. A lembrança se interrompe quando o cenário lá fora começa a se movimentar. Através da janela suja, paira no ar a paisagem da cidade, prédios, apartamentos, comércio, carros, motos. Total urbanização. Até que, aos poucos, vai se tornando parcial. Um pouco menos parcial. Até chegar ao destino. Uma vila rural. Sem muitas luzes, muito menos os aspectos de cidade grande. O domínio agora é do vento livre, que passeia sem barreiras. A mente constrói molduras para a paisagem de plantação. Os prédios estão distantes, pequenos, insignificantes diante de tanta infinidade verde. Plantas não faltam, mas para um sítio faltam animais. Só tem cachorros, grandes e bravos. São eles que fazem companhia a Aguinaldo, quando a madrasta necessita dormir na casa que trabalha. 

    No outro dia a mesma coisa, e no outro, no outro e outro. Exceto aos domingos, dia que se permite descansar. O lazer é não fazer nada, apenas descansar. Ele não sabe o significado da palavra passear, tão pouco namorar. Os dias incertos de certezas injustas cessam qualquer anormalidade. Nada a não ser trabalhar e descansar. Novamente, o ar que respira é de segunda-feira, depois de terça, e o resto da semana. De volta à monotonia. A mesma que o faz viver. Sobreviver. Existir. Mesmice que lhe traz o ganho de cada dia. Ele continua a engraxar. Por R$ 1 ele entrega o talento acumulado, capricha no lustre. Por mais R$ 1 oferecido pelos motoristas que são clientes há muito tempo, entrega um sorriso, tal que a vida o negou tão apressadamente. No presente, a vida dele, definitivamente não é um presente. Sobre o passado, pode-se dizer o mesmo. 
As habilidades com o lustre vieram de um brilho maior, a mãe. Mesmo sem trabalhar como engraxate foi ela quem ensinou o filho a fazer o polimento. Por falta de saída, ela usou a de emergência. Talvez a única. Desde sempre Aguinaldo se vê em dificuldades. Filho de cortador de cana e dona de casa, o menino não teve muitas escolhas, a não ser ajudar a família. A infância perdeu espaço. O que coube em si foi a maturidade. O brinquedo, sapato. A diversão, sobreviver. Sobretudo ainda tinha a família. União. Isso não durou muito. Além de todos os problemas, o pior deles fez parte da família: a doença. Não só fez parte como lhe tirou a melhor parte. A parte que Aguinaldo chamava de mãe. Aquela que lhe deu a vida, morreu. O câncer a levou.

O pai, fumante, encontrou um novo amor. Levou um símbolo de mãe para casa antes de partir. Formou novamente uma família, quase completa. Mas o vício no cigarro não deixou que continuasse a viver. Também morreu. As mortes do dia a dia se finalizaram de vez. Idas sem voltas. O engraxate sem pai nem mãe. Vivo, mas morrendo a cada respirar. Também há um irmão, morador de rua. É só o que se sabe. Definitivamente o passado, assim como o presente, não tem lacinhos e enfeites que agradam. O engraxate não tem sonhos para o amanhã. O futuro é hoje e o sonho é continuar sendo um vivente. Os caminhos incertos guiarão as novas histórias. O Terminal Urbano caíra por terra, dará espaço a uma nova construção. Os paradoxos de sentimentos indefinidos afrontarão o cérebro. Será isso um novo começo ou um meio para o fim? O homem que há 20 anos lutou pelo próprio espaço se vê sem espaço novamente. O futuro carrega incertezas do hoje. Seja como for as mudanças da monotonia e os próximos anos de vida de Aguinaldo, a profundidade de quem ele é durara até os últimos raios de sol. O homem carente por fora, carregará a certeza da fartura de dentro. Porque quem é, nunca deixa de ser.

Kamilla Yohanna Ribeiro