O embate de governadores e prefeitos contra Bolsonaro

Seria bom que o embate entre governadores e prefeitos contra Bolsonaro fosse pra valer. Mas, ao que parece, poderá não ser. O governador do Rio de Janeiro, logo após subscrever o duro manifesto de governadores contra Bolsonaro, por ter este postado mensagens inverídicas sobre vultuosas verbas que o governo federal teria repassado a estados e municípios (e que de fato não repassou) para o combate a covid-19, apressou-se em dizer, quase se desculpando pela ousadia, que continuaria apoiando o presidente.

É uma pena, mas nada que surpreenda aos que acompanham a atual conjuntura política brasileira. Muitos desses governadores e prefeitos, senão a maioria, têm apoiado ou se omitido em relação às desastrosas medidas (ou a ausência delas!) de combate à pandemia por parte do governo federal. E por esse comportamento, e apesar de tudo o que têm feito e continuam a fazer, meritória e incansavelmente, para substituir a omissão criminosa do governo federal, pagam hoje um duro preço ao verem o Brasil se tornar uma grande Manaus do início da pandemia. Hospitais lotados, sem vagas em UTIs, sem oxigênio suficiente, com pacientes em estado grave em enfermarias ou corredores, com carência de equipes de saúde, ou com equipes cansadas e esgotadas, física e psicologicamente, com aumento de internações ou com filas de doentes que não podem ser acolhidos.

As infecções pela covid-19 vêm aumentando exponencialmente e o número de mortos atinge índices pavorosos. Por outro lado, as vacinas são insuficientes até para vacinar os idosos e os compreendidos no grupo de risco. Pazuello e Bolsonaro a tudo assistem com o distanciamento e a indiferença que beiram à raia da mais completa falta de responsabilidade, de compaixão e de humanidade. E pior: Bolsonaro acusa os prefeitos e os governadores de estarem destruindo os empregos e a economia. É mais ou menos o mesmo que se acusar a um pai ou a uma mãe de faltar ao trabalho prostrados em um hospital, ao lado de um filho em estado grave ou terminal. Mas a maioria dos governadores e prefeitos sempre relevaram as estrepolias e as omissões de Bolsonaro e Pazuello.

Em agosto de 2020, foram oferecidas ao governo federal vacinas em quantidade suficiente para vacinar toda a população brasileira vacinável. Pazuello sempre postergou essa compra e, categórico, afirmava que o governo brasileiro só compraria as vacinas “quando e se houvesse demanda para tanto”. Bolsonaro inicialmente chamou a tragédia que se avizinhava de “gripezinha”. Depois, passou a desaconselhar o uso de máscaras, a promover e a incentivar aglomerações e a circulação de pessoas em nome da salvação da economia. E foi atendido. As praias ficaram repletas neste período de verão. As festas de Natal e Ano Novo foram comemoradas como se estivéssemos em tempos de absoluta normalidade. O carnaval foi o apogeu dos bolsonaristas “festeiros”. E o que disse a maioria dos governadores e prefeitos? Nada! Calou-se! Faltou-lhe coragem cívica para confrontar o presidente e a sua tresloucada política. A conta veio.

Agora, vimos a carta de protesto. Manifestação importante, ainda que tardia. É preciso que os prefeitos e governadores sérios do país não esmoreçam. Prossigam unidos e combativos. Recorram em conjunto ao STF para exigir que o governo federal cumpra sua missão constitucional de proteger o cidadão brasileiro; que os congressistas assumam suas responsabilidades e, no limite, cogitem de responsabilizar politicamente o Presidente da República. Pois, do contrário, o bolsonarismo prosseguirá impávido, indiferente à agonia e à impotência de estados e municípios no combate à pandemia. E, se assim for, se os governantes locais e estaduais prosseguirem se omitindo, subservientes a Bolsonaro, outras faturas virão, de outras áreas, de atentados à Democracia, como ocorreram no passado recente, com ataques reiterados ao STF e ao Congresso Nacional (antes do acerto com o Centrão); do incentivo ao desmatamento e às queimadas da Floresta Amazônica; do garimpo ilegal; da facilitação da compra de armas de fogo, aumentando a violência e colocando em risco o cidadão comum; do descaso com os direitos humanos e das minorias etc. Como se vê, o embate timidamente iniciado, com as deserções previsíveis em casos como este, deve e tem que prosseguir.

Os prefeitos e governadores honrados não podem desperdiçar esta oportunidade de evitar que o país se torne uma Venezuela de direita (não pelas razões econômicas, como diz temer o omisso ministro Paulo Guedes), mas confrontando abertamente o obscurantismo e o negacionismo bolsonarista, que põe em risco o Estado Democrático de Direito. Para tanto, devem prosseguir unindo-se a deputados e senadores independentes, às organizações democráticas locais, estaduais e federais, para, com desassombro, exigir autonomia e respeito aos entes federados. Assim agindo, evitarão que os aventureiros, em todas as esferas de governo, sejam eleitos ou reeleitos com base no populismo e na irresponsabilidade. É na adversidade, em momentos difíceis, que surgem os líderes verdadeiros. Que assim seja!