Perdeu a linha e o carretel

O cidadão brasileiro conhece muito bem as estripulias protagonizadas pelo atual chefe do executivo federal há décadas, mas agora o mandatário maior tem se superado a cada dia. Por conta da pandemia instalada no País, nosso presidente se mostra irredutível em questões já exaustivamente esclarecidas por pesquisadores, cientistas, infectologistas, epidemiologistas e tantos outros profissionais da área de saúde. Depois de defender o uso da cloroquina como medicamento eficiente contra o coronavírus, a última mania adotada por Sua Excelência é a recusa na utilização de máscara em ambiente público e o pior, agora pleiteia sua total desobrigação para quem já contraiu o coronavírus ou por aqueles que já estão imunizados.

Vivemos em uma época esquisita, inusitada. Só nos faltava mesmo “Seu” Jair para completar o time dos que fazem questão de, em todo momento, divergir das recomendações dos órgãos de saúde. Ocorre que Bolsonaro ocupa cargo público de relevância e naturalmente tem o poder de influenciar as pessoas. As polêmicas originadas por conta de seu comportamento se acumulam no noticiário e já fazem parte do anedotário popular, atualmente conhecidos como “memes”. Isso é altamente depreciativo para sua imagem inclusive no exterior, onde é visto com desconfiança exatamente por externar opiniões estritamente pessoais, sem a devida comprovação de fatos por ele asseverados. Em meio à imensidão de controvérsias que o acompanham, destaca-se seu péssimo costume em utilizar com frequência palavreado vulgar, totalmente incompatível com a função que exerce. O presidente passou ainda a incorporar neologismos rasteiros em seu sofrível vocabulário, por vezes gabando-se de ser “imorrível, incomível e imbrochável”, termos chulos utilizados para exaltar sua pressuposta condição de “macho alfa”. Nota-se, portanto, que tudo isso é fruto de descompasso mental com a realidade que o cerca. Inventou a tal “motociata”, um passeio com motocicletas em que se reúnem apoiadores e simpatizantes, com alto custo para os cofres públicos. Só não enxerga quem não quer ver que o “mito” está em plena campanha eleitoral.

Ao que tudo indica, Bolsonaro perdeu de vez a linha e o carretel. Abriu-se a caixa de pandora do Planalto Central. E dali com certeza, ainda sairão coisas do arco da velha, como diriam os mais antigos, experientes pelo tempo vivido nesse País de excentricidades e onde o chefe do executivo federal no exercício do cargo, é multado em dois entes federados por descumprir a legislação local que dispõe sobre o uso da máscara. Com a polarização descomedida e os ânimos cada vez mais exaltados, sobrarão estilhaços para o contribuinte brasileiro. Seria interessante que o presidente, com a influência que ainda tem sobre seus aficionados seguidores, deixasse de suscitar polêmicas desnecessárias e dedicasse suas energias para o combate à pandemia. Seria pedir demais, “Seu Jair”?


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR.

(Foto: Alan Santos/PR)