Nossos pais, Edivaldo Magro

Li no site Vinho e Outras um texto de homenagem do meu amigo Edivaldo Magro a seu pai, Waldemar Magro, que me inspirou a, reproduzindo seu artigo, em resumo, lembrar de Dorisvaldo Martins, o Seu Dozinho, meu pai dos meus oito irmãos.
Escreveu Edivaldo: ‘Papai morreu há 40 anos. Se foi no início da noite do dia 29 de julho de 1981. Tinha 54 anos. Encerrava na cama de hospital vida de trabalho e angústias. O coração parou, pois já vinha em descompasso há muito tempo. Waldemar Magro morreu aos poucos na vida. Na perda de dois filhos. Tristeza apressou seu fim. Era homem rude, de poucas palavras. Viveu quase sua vida toda na roça. Expulso da terra pelas seguidas geadas da década de 1970, a pior em 75, veio para a cidade fazer o que não sabia. Foi peixeiro, cavou valetas, servente de obras. Nada a ver com o cabo de uma enxada encarando eitos e leiras. (…)
Gostava de vinho. De garrafão. Tomava mais do que deveria. Não era vício. Era algum tipo de fuga. Buscava no fundo do copo alguma esperança. Fugia da tristeza na embriaguez. Não permitia que filhos bebessem. Não era exemplo nesse sentido. Mas foi em tantos outros. Homem correto, de caráter inabalável, com rigoroso senso de justiça. Ainda que o veja de copo de vinho na mão, o enxergo de chapéu, camisa encharcada de suor, enxada de guatambu no ombro, ‘paiero’ na boca, sapatão surrado no pé. Mais um dia de trabalho na roça.
Mamãe ainda está conosco e neste domingo, dia 8 de agosto, Dia dos Pais, comemora 89 anos. Não se sente à vontade quando rememoramos o passado. Talvez tenha sido bem mais sofrido para ela que para nós. Não adianta explicar-lhe que foi na dureza, sob a condução severa de ambos, que nos tornamos pessoas de índole. O sofrimento nos fortaleceu o caráter e a convicção de que aqueles tempos, com sua severidade, nos ensinou muito. Sobraram virtudes e lembranças. ‘
Escrevo eu ( Akino): Seu Waldemar renasceu em 1927, e meu papai e minha mãe( Dorisvaldo e Judith) dois anos depois, em 1929. Ambos eram da roça e no ano que seu papai retornou ao Mundo Espiritual, caro Edivaldo, seu Dozinho como ainda é conhecido em Alfredo Marcondes- SP, veio para a cidade, por razões mais ou menos parecidas com as que expulsaram seu Waldemar do campo.
Papai começara a vida trabalhando como carreiro ( condutor de carro de boi), que era o grande modal de transporte nos anos 40 até início de 60, na região da alta sorocabana. Depois foi agricultor, por pouco tempo, partindo para um certo ramo que não se pode chamar de pecuária, pois trabalhava mais na compra e venda de animais ( cavalos, burros, carneiros, porcos até bovinos).
Teve sucesso e chegou a ser proprietário de cerca de 30 alqueires de terra, que teve que vender para cumprir compromissos e quando veio para a cidade, pode-se dizer estava ‘quebrado’, dependente em boa parte dos filhos, aos quais deu educação rígida e muito por conta dos esforços de mamãe fez estudar, principalmente minhas irmãs que ele não queria de jeito algum fossem além do primário. mas teve forças para voltar aos negócios com pastos arrendados.
‘A pouca leitura’, pois mal sabia assinar o nome e fazer contas de cabeça, certamente lhe causaram prejuízos enormes e deve ter sido passado para trás nas contas e empréstimos em bancos. Perdeu quase tudo mais umas duas ou três vezes e se tornou um homem triste, com repentes de bom humor.
Em algum tempo da vida, quando ainda éramos crianças, também abusou do vinho até mamãe descobrir um pozinho que colocado na comida, quando ele bebia o fazia passar muito mal e assim parou, e acho que nunca soube o que lhe causava o mal estar.
Desencarnou em 5/12/2009, pouco antes de completar 80 anos, dentro da UTI, depois de esperar 12 dias para fazer o segundo cateterismo da vida ( antes fizera safena) e ele não queria, contou-nos o médico que ao dizer-lhe que precisa fazer o procedimento, virou-se e desfaleceu, e mesmo com todos os recursos da UTI e um médico filho de grande amigo seu e nosso, fazendo todo empenho, ele se foi.
Mamãe está conosco, ainda hoje, tendo completado 92 anos, com muita lucidez, ainda, e volta e meia reclama de meu pai por não vindo busca-la, mas no fundo sabemos que não quer ir.
Esta é, em resumo, a história de nossos pais, Edivaldo Magro, e certamente a de muitos da nossa época.
Feliz dia dos pais para todos, e reflitamos ouvindo de Hélio Ribeiro o maior comunicador que conheci na atual encarnação, uma homenagem ao pai dele, que serve para todos nós.
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