Um romance da terra crua

O carioca Jorge Ferreira Duque Estrada viveu por 14 anos em Maringá. Conheceu aquele sertão bruto, que ele descreve: “quando a ambição desenfreada farejava as riquíssimas terras devolutas; quando, os caminhos eram difíceis, não raro, pontilhados pela violência”. Muitos o conhecem por “Terra crua”, primeiro livro escrito em Maringá, lançado em 1961. Mas ele é autor de outro. Também muito bom: “Isto é você, Maria”…

Ao contrário de “Terra crua”, sua segunda investida literária é uma ficção, cujos personagens vivem naquela Maringá que desafiava as entranhas do sertão. O prefácio é do jornalista e poeta Antônio Augusto de Assis, o A. A. Assis. Uma plêiade de personagens, que página pôs página nos instiga a adivinhar quem é fulano ou sicrano. O médico cauteloso, que chegou de jardineira da Garcia, e se hospedou no Hotel Bom Descanso. Não demorou a construir um hospital. Ganhou dinheiro e se tornou fazendeiro de café.

O advogado que também se lançou na agricultura. Mas teve de enfrentar uma malta de bandidos liderados pelo sanguinário mor. Um bandido desordeiro que trucidava os chamados intrusos e tomava suas terras. Com anuência do governador. A bela moça, filha de posseiros desalojados, numa dessas chacinas, que após ser violentada e estuprada, desamarrou uma canoa e fugiu pelo Rio Paraná.

Atordoada, ela remou a esmo por vários dias. Até perder as forças e desmaiar dentro da embarcação. O condutor de um barco a resgatou. Por alguns anos ficou entregue a cuidados médicos. Ao voltar à vida encontrou o homem que a trouxe para Maringá após o resgate. Um fazendeiro, com quem se casou e virou condessa, morando numa bela mansão.

Leitura agradável. Daquelas de um fôlego, como se dizem. Os fatos são lineares, mas a frieza do narrador aviva a trama. Bar Central, Padaria Arco-íris, Farmácia Lopes, Hotel Bom Descanso são alguns dos ambientes que a ilustram. Nas palavras do próprio Duque Estrada “quando cada um tinha diante de si a aventura, e, atrás, quase sempre, uma desilusão a esquecer”.
Me parece que a edição de “Isto é você, Maria”… está esgotada. Eu achei este exemplar num sebo a módicos R$ 2. Um romance da terra crua.

Boa leitura!


(*) Donizete Oliveira, jornalista e historiador