O Tião do Furo e a cola na mão…

Quanto mais a gente ria, mas graça fazia. Chamavam-no de Tião do Furo

A gente morava num sítio, e um sujeito tratava dos porcos. Todo dia de manhã, ele passava numa estradinha acima de casa com um balaio cheio de milho. A calça dele suja, tinha um rasgo nas nádegas, conforme ele andava, o buraco abria e fechava, revelando a cueca. Crianças em festa. Adultos de cara amarrada. Mas ele não se importava. No outro dia, lá vinha, com a mesma calça furada, e a gente, a se matar de rir.

Um palhaço. Quanto mais a gente ria, mais graça fazia. Ora requebrava; ora ensaiava um tropeção. Chamavam-no de Tião do Furo. O apelido pegou. O jeito de andar, meio tropeçando, denunciava. Lá vem o Tião do Furo, diziam. Ele nem tomava conhecimento, com sua calça encardida e amarrotada estampando o enorme furo nas nádegas.

O mesmo Tião do Furo, numa outra leva, claro, parece encarnado num certo presidente da República. A aposta no mal feito é a tática dele e da equipe que o cerca. O sujeito espalhafatoso, que se lambuza de farofa numa birosca, que associa vacinas ao risco de virar jacaré, que pilota moto sem capacete. Por aí afora. Quanto pior, melhor (para ele).

Mas o pior mesmo é a mídia, que embarca feito criança ao redor de um carrinho de algodão doce. O episódio da cola na mão na entrevista repercute. É o que ele quer. Aparecer pelo viés do mal feito, do mau aluno que grafa cola na mão no dia da prova.

Assim, ele passa a mensagem que quer. Mesmo com a reprovação de adultos, as crianças não perdiam por nada o andar do Tião do Furo com o balaio de milho nas costas e a calça aberta na bunda. Só que a gente é eleitor. Uma eleição vem aí. A democracia permite liberdade, mas não perdoa atitudes infantis.


(*) Donizete Oliveira, jornalista e historiador.