Tudo bem, Neguinha parecia me dizer…

Sempre risonha. Desde o primeiro dia em que a vi, ela corria e abaixava a cabeça. Permanecia imóvel. De repente, mais correria. Esperta e feliz. Seu dono iria mudar e chegou em nossa casa com ela no carro. Minha irmã ficou um pouco indecisa, mas aceitou. Jamais deixaríamos ela voltar às ruas. O nome só podia ser Neguinha. Bastava chamar, ela embicava as orelhas.
Tinha três anos. Aos oito, contraiu cinomose. Dias doloridos. O veterinário não deu esperanças. Uma amiga recomendou ovos batidos e vitaminas. Devagar, aprumou-se. Alguns anos depois, infecção uterina. Cirurgia e ficou zerada, mas a idade avançou. Neguinha se definhava sem traumas. Às vezes, precisava de nossa ajuda para vencer a gravidade.
Até que o fim chegou aos 17 anos. De maneira tranquila, Neguinha se foi. Tremeu um pouco; os olhinhos silenciaram. Tudo bem, ela parecia me dizer. A enterramos no quintal. Com ela, nas minhas contas, já se foram 14. E irão muitos outros. É doloroso, mas faz parte. Sem eles, a vida fica mais cinzenta. Falta o encanto que nos preenche. Como afirma um dito, atribuído a Heráclito: “Os cachorros só ladram a quem não conhecem”.
(*) Donizete Oliveira, jornalista e historiador. Confira outras reportagens no site O Repórter Andarilho.