Morre Zé Celso Martínez, 86
O dramaturgo Zé Celso Martínez morreu, aos 86 anos, na manhã desta quinta-feira em São Paulo. Ele havia sido internado na UTI do Hospital das Clínicas desde a manhã desta terça, após sofrer queimaduras devido a um incêndio em seu apartamento no bairro Paraíso, Zona Sul de São Paulo. Há quase 60 anos, ele já havia enfrentando um incêndio que destruiu o Teatro Oficina, hoje rebatizado de Teatro Oficina Usyna Uzona. Em maio de 2018, ele concedeu uma entrevista a Donizete Oliveira, que republicamos, a seguir:
“Hoje, eu vou fugir com o vento/Vou até o firmamento/Vou ver a terra a brilhar, a brilhar/Vou abrir bem os meus braços/Me lançar por esse espaço”… (cantarolava Zé).
“Quando morremos, a última coisa que ocorre é deixar de respirar”
Frente a frente com Zé Celso
Um dos ícones do teatro brasileiro, aos 81 anos, fala sobre arte, drogas, política, religião, disputa com o apresentador Silvio Santos envolvendo um terreno entorno do Teatro Oficina, no bairro paulistano Bixiga, em entrevista a Donizete Oliveira, que o visitou no seu apartamento em São Paulo.
Entrevistar Zé Celso estava nos meus planos fazia dois anos. Telefonei ao Teatro Oficina. Mandaram-me falar com o Cyro, seu assessor de imprensa. Gente boa toda vida. Mas na época, não consegui falar com ele e abortei a ideia por um tempo. Em 2018, vou conseguir, prometi para mim mesmo.
Então surgiu a oportunidade de pegar uma carona com o professor Almir, corintiano que está sempre em São Paulo para ver jogos do timão. Mantive contato com Cyro. Desta vez, consegui falar com ele, que se comprometeu a ver com o Zé. Viagens, espetáculos, sabe como é a vida de um ator, diretor e tudo mais que envolve teatro.
Até no dia de eu viajar, Cyro não me dera resposta, mas fui assim mesmo, pois havia agendado outras entrevistas por lá. Estava em São Paulo e, de repente, meu celular tocou. Era ele pedindo desculpa pela demora e dizendo que o Zé me receberia naquela noite.
Ele me passou o endereço, um apartamento no bairro Paraíso, perto do Ibirapuera. Eu estava num hotel próximo à Praça da República. Embarquei num carro da UBER e fui. Em 15 minutos, cheguei ao local, paguei os R$ 13,00 da corrida. Chamei pelo interfone, e veio o Marcelo Drummond, um dos atores do grupo do Zé. Subimos até o apartamento 63.
O Nagô, um cãozinho preto, me deu as boas vindas. Ele ficava quietinho do lado dos meus pés, de repente, avançava, mas não mordia. Numa estante vi vários livros do filósofo Friedrich Nietzsche e figuras do deus grego Dionísio, que é a religião do Zé. Entre Dionísio e Apolo, ele sempre está este.
Marcelo pediu para eu esperar numa sala enquanto Zé terminava de jantar. Trocamos prosas sobre o Paraná e o trabalho do grupo Oficina, sobretudo, a peça “O Rei da Vela” que voltara a ser encenada. Dali a pouco surge o Zé envolto num robe vinho. Abracei-o agradecendo por me receber.
Antes, ele reclamara do jantar, dizendo a Marcelo que a comida estava insossa. Ele escovou os dentes e retornou à cozinha. Na volta, veio com duas xícaras de chá e me perguntou: maçã ou hortelã? Escolhi o último, mas estava muito quente. Pus à mesa para resfriar e tomei aos goles durante a entrevista.
Zé me conduziu a um quarto, apagou a luz e acendeu um abajur, virou-o para a parede e disse a Marcelo: “faz um baseado pra mim?” Logo ele veio com um cigarro comprido. “Você se importa se eu fumar maconha?” Perguntou. Não, respondi. Mas o cheiro me irrita as narinas, pensei.
No entanto, para minha surpresa, o cheiro do baseado do Zé era suave e não mexeu com meu nariz. Segundo ele, o médico o liberara a consumir maconha e vinho. Outras drogas, não, por causa do seu marca-passo, dispositivo que regula os batimentos cardíacos, que usa desde 2010.
A entrevista começou com José Celso Martinez Corrêa, um dos principais nomes do teatro brasileiro, recordando sua infância em Araraquara, interior paulista, onde nasceu em 30 de março de 1937. Falando baixo e cantarolando quando se referia a alguma canção, ele foi destrinchando sua vida. Eu liguei o gravador, e a entrevista, cujos principais trechos estão a seguir, fluiu.
Infância – Toda criança faz arte até quando faz coisa errada. Não faz arte menino, dizem, não é? Eu fui saber o que queria da vida empinando um papagaio, que fiz e se chamava imperador do espaço. Eu saí correndo atrás dele, mas ele ganhou altura, subiu. No outro dia, o encontrei todo molhado, rasgado. Ventou muito. Aí peguei o violão e fiz uma música: “Hoje, eu vou fugir com o vento/Vou até o firmamento/Vou ver a terra a brilhar, a brilhar/Vou abrir bem os meus braços/Me lançar por esse espaço”… (canta).
Em 1939, numa máquina de escrever, da escola do meu pai, escrevi a peça “Vento forte para papagaio subir”. Que estreou em 1958, num teatro onde hoje é o Teatro Oficina. Depois fiz outra peça chamada “A ponte” com meu amigo da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, o Carlos Queiroz Telles. A coisa pegou porque antes o teatro era “caveira de burro”, quer dizer, ninguém ia ver. Vieram outras peças, “A vida impressa em dólar”, “Pequenos burgueses”.
Burguesia – “Os pequenos burgueses”, de Máximo Gorki, retrata a aristocracia decadente, com um operário da Revolução Russa de 1905. Ele namora uma garota dos pequenos burgueses. Dois mundos se encontram. O da aristocracia, pequena burguesia e o da revolução.
Tem muito a ver com a burguesia de hoje. A mesma caretice. O corpo formado pelo modus vivendi capitalista dominante. Um formato que rouba a humanidade da pessoa e a transforma num robô, numa matrix. Até você quebrar essas couraças pra se tornar um ser humano de verdade, leva tempo, é um processo longo. O Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) fazia peças para ensinar o público, transmitir ideias. Nossas peças, ao contrário, buscavam (e buscam) transformar o público.
Golpe de 1964 e exílio – O golpe de 1964 nos pegou de surpresa. Peças tiveram de sair de cartaz. Tivemos de fugir, aquela coisa toda. Mas conseguimos libertar o teatro, com ajuda, inclusive, da grande atriz Cacilda Becker. Eu queria fazer Brecht, autores russos, mas achava que não estava preparado. Então, fiz “Andorra”, de um cara chamado Max Frisch. Que é um bode expiatório. Quando se tem mais medo da desgraça do que da mudança, cria-se um bode expiatório. Como estamos vivendo atualmente (se refere à prisão do ex-presidente Lula).
Mas não paramos aí. Em 1967 encenamos o “Rei da Vela”. Houve uma revolução. Minha geração toda sem se falar se ligou. Nascia a Tropicália (movimento cultural brasileiro que surgiu sob a influência das correntes artísticas da vanguarda e da cultura pop nacional e estrangeira, misturando manifestações tradicionais da cultura brasileira a inovações estéticas radicais).
O “Rei da Vela” trouxe a antropofagia de Oswald de Andrade. “Tupy or not tupy, that is the question”. Ou seja, você tem seu corpo como índio, que vem da terra, que está ligado a terra. Pra tirar a caretice, as máscaras, essas coisas que as pessoas carregam. Aí veio o AI-5. Em 1968, o Chico Buarque me convidou pra fazer “Roda Viva”. Topei. Mas com o “Rei da Vela” viajamos pelo país. Fiz também “Galileu Galilei”. Houve violência, fomos atacados pela ditadura. Quase fui preso com Caetano e Gil. Muito parecido com agora. Naquele ano tivemos a morte do estudante Edson Luiz; hoje é Marielle Franco (a então vereadora Marielle Franco assassinada no RJ, em 14 de março de 2018).
Até que em 1974 fui preso, torturado e exilado. O Oficina foi fechado. Estive em Portugal, na Revolução dos Cravos. Por lá encenei “Galileu Galilei” e fiz o “O parto”, um filme sobre a Revolução dos Cravos. A gente compôs até uma música pra revolução, que dizia: “criar, criar, poder popular… a revolução faz quem trabalha com suas mãos: É de baixo para cima; é de dentro para fora” (canta). De lá fui para Moçambique. Com Celso Luccas, fiz o filme “25”, que conta a história da independência de Moçambique após 400 anos de opressão e dominação colonialista. Com a anistia, voltei ao Brasil, em 1978.
Arte e política – Não faço teatro com objetivo político. Faço aquilo que quero fazer, que emana do meu corpo. Mas no Brasil a política está toda condicionada a uma estrutura de Estado a serviço do imperialismo, que hoje não é só americano; é chinês, é russo. A gente vive num quintal. Esse golpe, em 2016 (referindo-se ao impedimento da então presidente Dilma Russeff, em 31 de agosto de 2016), nos colocou num quintal. Limitou tudo. Cortaram tudo. Querem assassinar o Teatro Oficina.
Forças conservadoras – Oswald de Andrade escreveu o “Rei da Vela”, em 1933, publicado em 1937, ano em que nasci. Que retrata o que está acontecendo hoje. Vivemos sob um golpe fascista. Com ajuda da especulação financeira. O capital se transformou em especulação. É uma questão de percepção. Que envolvem os terráqueos, filhos desta Terra, deste Planeta, que é vivo como outros pelo Universo afora. Como o ar que respiramos, que é vida. Quando morremos, a última coisa que ocorre é deixar de respirar.
Quando você inspira, inspira o Universo; quando você expira devolve ele, passado por você. Entendeu? Você comunga disso, é invadido por isso, queira, ou não. O Sol, a Lua, o vento, o frio, o calor, essas coisas temos de levar em conta, cuidar delas, e hoje, infelizmente, elas estão em perigo.
Drogas – Tem de acabar com a guerra do tráfico. É o que faz a fortuna dos donos do negócio da droga, que não moram na favela. Temos de acabar com a guerra do tráfico, como na Colômbia. Anistia pra todos envolvidos. Eu fumo maconha desde 1967. Consumi outras drogas, inclusive, ácido lisérgico, na década de 1960. Na época, era puro, fabricado pelo guru Timothy Leary. Naquele tempo, os ácidos eram outros, depois foram alterados pela CIA. Hoje, viraram outra coisa, misturados.
A droga me faz ter percepção maior das coisas. Cocaína, eu não posso mais. Pus marca-passo. Só posso maconha e vinho, mas já experimentei todas. “Cocaína, na farmácia carreta é vendida como tarja preta” (canta).
Religião – Minha religião é o teatro, mas gosto do candomblé. O teatro é a religião dionisíaca, a revolução do aqui, agora. É o que mostramos no “Rei da Vela”, a antropofagia. Sou antropófago. O Oswald voltou à perspectiva dos índios. Ele ligou minha geração de 1967, que sacudiu 1968.
O Oswald de Andrade embora fosse filho da elite paulista era progressista. Os filhos daquela elite foram para a Europa. Ele chegou até à antiga União Soviética e participou da efervescência da Revolução de 1917. O Ibirapuera, o Masp, a Bienal, a Cinemateca são frutos dessas viagens dos filhos da elite paulista. Infelizmente, hoje a elite prefere se esconder atrás de sua máscara liberal a carregar os ideais de justiça da humanidade.
Prisão de Lula – Um bode expiatório. É o que tão fazendo com o Lula. Desde que foi dado o golpe, em 2016, eles transformaram aquele programa que tinha sido eleito, incluindo o social, a saúde, a educação, a cultura. O Gil (Gilberto) foi um ministro antropófago da Cultura; O Juca Ferreira um ecologista, que deu continuidade ao que vinha sendo feito, mas em pouco tempo destruíram tudo. (O atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva fora preso em 7 de abril de 2018. Começava a cumprir pena de 12 anos e 1 mês em regime fechado, mas cumpriu apenas sete meses e um dia, solto pelo STF, que considerou parcialidade no seu julgamento).
Embate com Silvio Santos – Antes do golpe de 2016 (se referindo à destituição da então presidente Dilma Russeff), o Silvio Santos queria trocar o terreno (área em torno do Teatro Oficina). Mas mudou de ideia depois que o Alckmin (Geraldo Alckmin) e o Dória (João Dória) (ainda governador e prefeito) lhe prometeram revitalizar aquela área. No entanto, a revitalização será o genocídio do Bixiga (bairro paulistano Bixiga). É golpe dentro do golpe. Por exemplo, trocaram os membros do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), que cuidava do caso. As pessoas que estavam lá tomavam partido em nossa defesa; as atuais, não.
Mas nossa luta continua. Um projeto do vereador Gilberto Natalini, do Partido Verde (PV), que tramita na Câmara Municipal de São Paulo, nos traz esperança. Ele prevê desapropriação do terreno adquirido pelo Grupo Silvio Santos em 1980 e criação no local de um parque municipal reflorestado com vegetação originária do bairro.
Precisamos salvar o Bixiga, que é um bairro maravilhoso. Se for preciso, vamos até a ONU. No Bixiga, está o melhor teatro do mundo, o Teatro Oficina, idealizado pela fabulosa arquiteta Lina Bardi. Não sou eu que digo. Quem disse foi o jornal britânico The Guardian, que numa pesquisou considerou o Teatro Oficina o melhor do mundo.
Nota: A contenda do dramaturgo Zé Celso com apresentador e empresário Silvio Santos se arrasta desde 1980 e envolve um milionário investimento do dono do SBT. Em 1982, o Teatro Oficina foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Só que a área em seu entorno, com 11 mil metros quadrados, pertence ao Grupo Silvio Santos, que pretende construir prédios no local.
A entrevista durou 1 hora e cinco minutos. Zé Celso me acompanhou até o elevador. Despediu dizendo: “Você não entrou na minha, Donizete”? Que pena, respondi sorrindo, mas pensei: “Zé Celso deve ser consumido em gotas. De uma vez só é o mesmo que contar os fios de cabelos do bigode do impávido Nietzsche exposto na sua estante a encarar as visitas”.
Pra voltar de Uber paguei R$ 33,00. O motorista, simpático, falante, ficou dando voltas no centro de São Paulo. Repetia que os prédios atrapalham o sinal do aplicativo. Passei por um mesmo túnel duas vezes, mas valeu. A entrevista compensou.
(Colaboraram com minha viagem a São Paulo, os amigos: Jorge Fregadolli (Revista Tradição), vereadora Ana Lúcia Rodrigues, professor Lahyr Perri, jornalista Júlio César Raspinha, agricultor aposentado Euclides Sordi e professor Almir Tronco).
Foto: Instagram/Zé Celso Martinez Corrêa/Reprodução do livro: “Primeiro ato – Cadernos, depoimentos, entrevistas, 1958-1974”
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