Autoimolado na guerra santa bolsonarista

Há, em nosso país, um exército de terroristas suicidas prontos para atentar contra a vida de qualquer um que pense diferente

O ataque terrorista realizado por um militante bolsonarista, filiado ao Partido Liberal, na Praça dos Três Poderes, ocorrido na noite de ontem, deve reacender o alerta às autoridades e forças de segurança. Em sua ideologia beligerante e de aniquilação do contraditório, esse grupo fanatizado, regido por frases dúbias ditas irresponsavelmente (ou estrategicamente) por suas lideranças, começa a materializar como tática de destruição do inimigo a possibilidade da autoaniquilação: a imolação de si mesmos em favor de algo divino e contra um inimigo demoníaco — no caso, o contraponto à sua visão de mundo.

Não é um caso isolado. Em junho de 2020, um grupo de 30 bolsonaristas atirou fogos de artifício contra o STF. Na véspera de Natal de 2022, outro terrorista tentou explodir um caminhão-tanque cheio de combustível no aeroporto de Brasília. Assistimos à tentativa de destruição das sedes dos Três Poderes e à tentativa de tomada de poder por esse mesmo grupo terrorista em 8 de janeiro de 2023. Nos municípios, ameaças, agressões verbais e fake news contra adversários, além de casos extremos de violência, perseguição e assassinatos, foram empreendidos pelo terrorismo autonomista dos militantes bolsonaristas, que fazem uma livre interpretação das centenas de “apitos de cachorro” publicados e ditos por seus comandantes.

Não são todos os eleitores de Jair Bolsonaro potenciais homens-bomba, longe disso. A esses, talvez, caiba o peso da conivência com discursos inflamados de ódio contra minorias, de insuflamento à violência contra opositores políticos e de demonização de quem pensa diferente, além de silenciar sobre a absurda narrativa do “nós contra eles”, do “bem contra o mal”. Para além disso, aqueles não fanatizados são brasileiros comuns, que trabalham e se divertem com anedotas políticas, replicando a essência de torcedores em um Fla-Flu.

Há, porém, no Brasil, um contingente expressivo, um exército de potenciais homens-bomba, cuja transubstanciação do discurso de ódio em imolação de si contra esse inimigo demoníaco pode ser disparada por uma publicação no Twitter de algum deputado, alguma fake news recebida no grupo do WhatsApp, ou numa live de algum influenciador com os nervos inflamados.

O último terrorista a se sacrificar era de Rio do Sul, uma cidade pequena e agradável no Vale do Itajaí. Viajou quase 1.700 km em seu Kia Shina e imolou-se na capital federal, mas poderia ter feito isso no plenário de uma câmara de vereadores durante a votação de um projeto qualquer sobre banheiro unissex, no saguão de uma assembleia legislativa, na sala de espera do gabinete de algum prefeito, ou onde estuda a filha ou o filho de algum político de quem discorde. E poderia, sim, pois a guerra é contra “principados e potestades”, e a missão é divina. Dos céus, esses potenciais homens-bomba recebem a “sabedoria” para compreender, nas entrelinhas, a mensagem divina compartilhada pelos líderes em suas redes sociais. Compreendem a urgência, sentem-se prontos para a missão e lançam-se ao abismo do sacrifício.

Não estamos lidando com casos isolados e seria um erro olhá-los separadamente ou mesmo atribuir-lhes algum distúrbio psiquiátrico qualquer ou o sumiço da razão. Há, em nosso país, um exército de terroristas suicidas prontos para atentar contra a vida de qualquer um que pense diferente ou que blasfeme contra a sacralidade de seus ideais conservadores, seja invadindo escolas ou festas de aniversário temáticas.

Terrorismo é terrorismo. Ele é tático, desestrutura a ordem, gera insegurança, dá fôlego e consistência à “causa”, além de inspirar outros “irmãos na fé “; porém, para que aconteça, precisa de pessoas convencidas de que sua vida vale menos que a “causa”.


(*) Luiz Modesto – sociológo, especialista em políticas públicas

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil