O dia em que o vampiro abriu a janela


Homenagem ao escritor Dalton Trevisan, que morreu nesta segunda-feira, dia 9, em Curitiba, onde vivia
“O que não me contam, eu escuto atrás das portas. O que não sei, eu adivinho – e, com sorte, você advinha sempre o que, cedo ou tarde, acaba acontecendo”. Disse o escritor Dalton Trevisan ao jornalista Araken Távora. Numa de suas raras entrevistas (talvez, única) publicada em 1968, na Revista Panorama. O jornalista lhe perguntara onde buscava o tema para seus contos? A entrevista está transcrita no excelente site de literatura “Tiro de Letra”.
Resolvi seguir o conselho do próprio “vampiro”. Assim o chamam. Estava eu em Curitiba num dia ensolarado. Oposto aos hábitos de um vampiro. Uma quinta-feira de julho de 2016. Inverno seco. Manhã fria; tarde de mormaço, mas logo o frio voltaria. Encontrei meu amigo Orlando Lisboa de Almeida.
Engenheiro agrônomo aposentado, foi morar na capital. Ele me levaria até a casa do “vampiro”, no bairro Alto da Rua XV. Cortamos o centro a pé. Subimos pela rua Amintas de Barros. Na esquina com a rua Ubaldino do Amaral, número 487, avistamos o antigo casarão de alvenaria. Com sótão. Características dos descendentes de europeus que povoaram aquele bairro.
Era pouco mais de 17 horas. Esperei a pausa do semáforo. Fotografei. O jornalista nunca deve ceder às artimanhas do entrevistado. Tinha certeza de que o “vampiro” não me receberia. Mas levei um exemplar de “O vampiro de Curitiba” na esperança de ele autografar. Aproximei-me de um dos janelões, que dão para rua. Bati uma, duas, três vezes. Dei uma pausa. Mais três batidas…
De repente, a janela se abriu. Surge um senhor de cabelos curtos, lisos e esbranquiçados. Óculos discretos. Faces ruborescidas. Dizem que é tímido. Imagino que a característica da pele era por causa do frio mesmo. Disse que era de Maringá e viera a Curitiba trazer um livro para ele autografar. Desculpou-se, dizendo que não estava mais autografando. Insisti. “Poxa vida, vim de tão longe!” “Lamento, mas parei com os autógrafos”, repetiu.
Por alguns segundos, pairou um silêncio entre nós. Meio sem saber o que diria, tasquei: “Então, me dê um livro seu. Quero uma lembrança, pelo menos”. “Pois, não!” Abaixou-se e pegou dois exemplares. “Você pediu um e eu te dou dois”. Ambos da editora L&M Pocket: “A gorda do Tiki Bar” e “Frufru Rataplã Dolores”. Obrigado! Agradeci. Ele retribuiu e fechou a descorada e corroída janela. Ouvi um barulho de cachorro correndo pela casa.
Escondi a câmera debaixo da camisa. Arredio a fotos, se a visse talvez fechasse a janela antes. Ao abri-la me varreu da cabeça aos pés, com um olhar desconfiado. Suponho que precavido a celulares, câmeras ou qualquer apetrecho que pudesse filmá-lo ou fotografá-lo. Não saí de lá realizado porque queria um autógrafo. Mas me dei por satisfeito. Ao menos o vi. Agradeço ao Orlando, que me levou ao Alto da Rua XV e possibilitou o inusitado encontro.
O conselho valeu: “O que não me contam, eu escuto atrás das portas”. O diálogo com o “vampiro”, na janela, demorou exatos 55 segundos. Cronometrados. O Orlando viu. Assim não preciso dizer “Somente Deus por testemunha”. Um dos filmes sobre a trágica história do Titanic. De naufrágios basta o lendário navio. Minha tentativa de entrevista, não. Ao menos o vi para contar.

Foto: Reprodução/Jornal Nacional