O filho do “Almirante negro”

Candinho, único filho vivo de João Cândido (foto), marinheiro que liderou a Revolta da Chibata, exigindo o fim dos castigos na Marinha, vive em São João de Meriti (RJ) e luta para manter viva a memória do pai, cujo nome espera aprovação da Câmara dos Deputados para fazer parte do Livro de Heróis e Heroínas da Pátria

1, 2, 3, 4, 5… 250 chibatadas nas costas de um marinheiro pendurado em um pau-de-arara. Enforcamento nos mastros dos navios, prisão na solitária a pão e água e turno de trabalho de 36 horas também faziam parte dos castigos que se repetiam havia anos. Mas aquelas dezenas de chibatadas foram a gota d`água para a explosão de uma revolta, que ficou conhecida por Revolta da Chibata. Em 22 de novembro de 1910, um motim eclodiu nos encouraçados Minas Gerais, São Paulo, Cruzador Bahia e blindado Teodoro.

Quebrou-se a hierarquia na Marinha. No Minas Gerais, foram mortos o comandante, dois oficiais, um sargento e um marinheiro. No Bahia, mataram o oficial de serviço. No São Paulo e no Teodoro, desembarcaram oficiais. No primeiro, um tenente rendido suicidou-se. Numa mensagem ao governo, os amotinados exigiam o fim das chibatadas e outros castigos. Armados com 60 canhões, entre eles, 24 de grande calibre, atiraram sobre o Rio de Janeiro. As autoridades acuadas, se renderam, concedendo anistia aos revoltosos.

Daí em diante, um personagem entraria em cena, o líder da Revolta da Chibata, João Cândido Felisberto, que ganhou o apelido de “Almirante Negro”. Gaúcho da pacata cidade de Encruzilhada do Sul, no Vale do Rio Pardo, a 170 quilômetros de Porto Alegre. Um amigo da família daquele menino negro e pobre, moradora da fazenda Coxilha Bonita, o recomendou à Companhia Militar de Porto Alegre. Ele tinha 14 anos e, dali o encaminharam para a Marinha do Brasil, na então capital federal do Rio de Janeiro.

João Cândido em jornal que retratou o levante dos marinheiros

Liderar o movimento lhe trouxe um preço. Ao termino da Revolta da Chibata, ele foi preso e levado, na véspera de Natal, com 16 companheiros, para a ilha das Cobras. Na noite de Natal, 15 deles morreram sufocados por cal que haviam jogado na cela. Sobreviveram João Cândido e um soldado naval. Combalido e tachado de louco, do cárcere, ele foi transferido para o Hospital Nacional dos Alienados, na praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Após dois meses de internação, o mandaram de volta à prisão, onde ficou por mais dois anos. Em 29 de novembro de 1912 foi a julgamento. O tribunal o absolveu, mas o expulsaram da Marinha.

Daí em diante, a vida de João Cândido se transformou num martírio. Para sobreviver, ele passou a trabalhar numa feira de pescados na Praça XV, no Rio de Janeiro. Casado três vezes, teve 11 filhos. Jornais e rádios eram proibidos de citar o nome dele, na tentativa de apagá-lo da história. Mas João Cândido resistiu até sua morte em 1969, aos 89 anos, vítima de um câncer de pulmão. De lá para cá, a luta pelo reconhecimento da memória dele não deu trégua. Nos dias atuais, cabe a Adalberto do Nascimento Cândido, o Candinho, único filho vivo dele, a liderá-la.

Candinho discursa na inauguração do museu sobre a memória e a história do seu pai, em São João de Meriti

Telefonei para ele, chamou, chamou… até a ligação cair. Mas dali a pouco, Candinho retornou. Simpático e pronto a falar sobre o assunto. A prosa levou mais de 30 minutos. Morador de São João de Meriti, município do Rio de Janeiro, nem parece que completará 87 anos em 30 de novembro próximo. Lúcido, fala com entusiasmo da memória do pai, da luta para preservá-la e colocá-la no lugar em que merece estar, que é o Livro de Aço de Heróis e Heroínas da Pátria.
Uma Comissão do Senado aprovou a inserção do nome dele no livro, mas a Marinha reluta em aceitar. “A Força Naval não vislumbra aderência da atuação de João Cândido Felisberto na Revolta dos Marinheiros com os valores de heroísmo e patriotismo; e sim, flagrante que qualifica reprovável exemplo de conduta para o povo brasileiro”. Trecho de uma carta assinada pelo comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, publicada na Agência Brasil.

O projeto seguiu para a Câmara dos Deputados. A deputada Benedita da Silva (PT) foi designada relatora e apresentou seu parecer em 2022, mas até hoje não foi votado. A parlamentar se manifestou favorável e considera que a inclusão de João Cândido no Livro de Aço de Heróis e Heroínas da Pátria seria uma “reparação histórica”. Para Candinho, o pai dele é um herói popular que lutou pelos companheiros e para que houvesse dignidade e respeito numa instituição tão importante, que é a Marinha do Brasil. “Esperamos um aceno positivo, não temos mágoa, ressentimento, apenas queremos o que é justo, o reconhecimento da memória do meu pai”, disse.

Com a deputada federal Benedita da Silva (PT) e a ministra de Igualdade Racial, Anielle Franco

Os feitos do pai não lhe saem da cabeça. Quando a saúde permitia, saía à rua para prosear e tomar uma cervejinha com os amigos. Um ou outro que o encontrava tocava no assunto. “O povo reconhece a luta do meu pai”, afirma. “Uma luta que não cessa e nem deve cessar na busca por um Brasil digno e justo, sem preconceitos”. De família pobre, Candinho lembra a luta dos pais numa São João de Meriti que começava a existir, cercada por grandes fazendas. Com 12 anos, ele arrumou uma caixinha de madeira e começou a engraxar sapatos nas ruas. Ganhava um dinheirinho para ajudar em casa.

A pobreza da família não permitiu que construíssem um túmulo para o pai. Sepultado na terra, com o passar dos anos, a administração do cemitério retirou os restos mortais do local, que se perderam no ossuário. Para preservar a memória de João Cândido, após reivindicações da família e amigos, a Prefeitura do Rio de Janeiro construiu uma estátua dele, instalada no Museu do Catete. Em 2008, a Prefeitura a revitalizou e a transferiu para a Praça XV. Construída em bronze, leva a assinatura do artista plástico Walter Brito.

Com voz pausada, Candinho continua a falar do pai, que nas horas de folga sentava numa cadeira para pitar. Liberty e Astoria eram os cigarros preferidos dele, que também sorvia um trago de alguma bebida destilada. O filho não se lembra o que era, mas ele bebia sem exageros. Frequentou pouco a escola, mas sabia ler, hábito que cultivava com os jornais da época. Assim se informava do que acontecia no país. Na Marinha, viajou pela Europa, o que lhe permitiu conhecer a cultura de outros países.

Um hobby que ele não deu sequência foi o de bordar. Uma reportagem na revista História, da Biblioteca Nacional, o chama de “O marinheiro bordador”. A habilidade teria surgido das atividades nos navios da velha Marinha. “Lidar com a complicada cordoalha […] dar nós de todos os tipos, costurar velas, era com ele mesmo. Daí a bordar era apenas um passo”, descreve a revista. “Não cheguei a ver meu pai a bordar, mas é possível que tenha praticado, pois está registrado e expostos nos museus”, afirma Candinho.

Dois bordados dele estão no Museu de Arte Regional de São João Del Rei. Ambos feitos na época em que fora preso e levado com 16 companheiros a uma solitária na Ilha das Cobras. Feitos em toalhas de rosto após a morte de 15 deles e ser internado no Hospital dos Alienados. Talvez tenha encontrado no bordado um meio de extravasar a dor. Um deles traz no centro a palavra amor e, abaixo, um coração sangrando. No outro, destaca-se o título “O adeus do marujo”; embaixo, lê-se “liberdade”.

Candinho diz se inspirar na persistência e sabedoria do pai que, mesmo contra as adversidades, não perdia o bom humor. Certa vez, os colegas encomendaram um bolo para comemorar o aniversário dele em um navio. Dois marujos ao subirem ao local com a encomenda tropeçaram, partindo-a ao chão. João Cândido lhes disse que não deveriam se surpreenderem, pois para ele, as coisas sempre eram difíceis. Com razão, se na Marinha ele lutara pelos companheiros, após sair da prisão e se casar, as dificuldades persistiram. Partia todos os dias de casa, subia no bonde e no trem e ia até a Praça XV ganhar o sustento para manter a família.

Aposentado, Candinho trabalhou 62 anos na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Pai de três filhos, avô de sete netos e quatro bisnetos, ele viu mais uma conquista em prol da memória do pai. A inauguração do Museu Marinheiro João Cândido, em dezembro de 2024, em São João de Meriti. “Sempre me preocupei em guardar coisas que lembravam meu pai, por exemplo, recortes de jornais e fotografias”, afirma. “Esse museu contribui para que esse passado continue vivo”. Promover e difundir a história de João Cândido e da Revolta da Chibata é um dos objetivos do museu.

Torcedor do Vasco, que ele considera o “time da virada”, Candinho garante continuar a luta pelo legado do pai. Para ele, viver no Brasil se traduz numa batalha constante para manter viva dignas memórias, de gente que arriscou a vida por uma causa social, como fez João Cândido. “Meu pai, nos piores momentos, não se deu por vencido, mostrou que a gente deve perseverar naquilo que é correto”, acredita. “Eu continuo no limite das minhas forças, mas com a certeza de que lutar pela memória dele vale a pena”.

A saga do marinheiro João Cândido virou tema de música:

O mestre salas dos mares
(Composição: Aldir Blanc e João Bosco, interpretação: Elis Regina)Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu.

Conhecido como navegante negro
Tinha dignidade de um mestre sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto, pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas.

Rubras cascatas jorravam das costas
Dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava então.

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória à todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais.

Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais.

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória à todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais.

Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais, mas salve.

Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo.

Texto: Donizete Oliveira
Fotos: Josi Areia/Correio da Manhã/Arquivo Nacional