Comandante Esther, onde está você?


Brizola orientou que realizássemos todos os esforços para convencer o comando da guerrilha salvadorenha de que a única saída seria a mesa de negociações; comandante Esther ajudou a fundar a FMLN
Eu a conheci durante a Assembleia Nacional Constituinte. Ao lado de outros três integrantes do comando da guerrilha salvadorenha, todos ocultos sob nomes de guerra em busca de uma recepção que se tornou impossível pelo então presidente José Sarney, aceitaram conversar com um pequeno grupo de constituintes do PDT.
De nossa parte, já havíamos recebido instruções do líder Leonel Brizola, no sentido de que realizássemos todos os esforços para convencê-los de que a única saída para a guerrilha seria a mesa de negociações. O novo presidente norte-americano era Ronald Reagan, que havia adicionado apoio militar ao governo local, que já havia recebido importante ajuda financeira.
– É preciso insistir na realidade. Não há correlação de forças. Mais de 50.000 cadáveres já foram o preço da guerra civil.
Ouvi as ponderações da parte deles, bem como os apelos dos constituintes Brandão Monteiro e Doutel de Andrade. Em minha companhia a Joseane, filha primogênita com 13 anos de idade. Iniciei a fala perguntando: qual era a rotina da guerrilha salvadorenha.
Respondeu- me a guerrilheira:
– Nós nos dividimos em muitos pequenos agrupamentos de três revolucionários dos quais somente um é o franco-atirador, ladeado por dois auxiliares atentos a quaisquer emergências.
– Somente isso, Comandante Esther? Até onde eu sei, são mínimas as coberturas florestais em El Salvador. Lembrem- se de que no Vietnam sobravam rios, esconderijos florestais e túneis em abundância. Vocês estão sabendo que a luta não é mais contra um governo nacional decadente, mas contra aviões e tanques de guerra do império?
– É muito melhor assim – interveio o comandante Leonel. – Serão massacrados com as próprias armas com que nos ameaçam.
Não estava fácil argumentar sob esse enfoque.
– Comandante Ester – voltei à carga. – Você é uma linda mulher. Não gostaria de saber que bombas americanas a estrangularam. É impossível uma solução militar para a crise. Um namorado certamente a espera. Você merece ser feliz…
Indiferente aos meus argumentos, a guerrilheira sentou-se ao lado de minha filha e sussurrava aos ouvidos dela:
– Volte conosco a El Salvador. Adolescentes como você prestam valioso apoio à causa dos oprimidos.
– Até que eu gostaria – respondeu a minha filha – mas o meu pai não me deixaria nunca viajar com vocês.
– Interrompi a fala sem mais delongas.
A Comandante Esther olhou sorrindo para mim.
Hoje, passados muitos anos, Comandante Esther, obtive informações a seu respeito. Numa reportagem rápida, notei que ali você estava: grávida, o rosto angustiado atrás das grades e uma observação: a Comandante salvadorenha Esther – nome de guerra- deverá ser morta, assim que o bebê nascer.
Lembrei-me tanto que, ao término de nosso encontro, você havia comentado que a sua decisão pela guerrilha havia ocorrido ante o sangue do arcebispo Oscar Arnulfo Romero de San Salvador, assassinado a tiros de fuzil por dois mercenários a serviço dos EUA, enquanto celebrava a missa na capela carmelita do Hospital de la Divina Providencia em 1980, mal conseguindo pronunciar que “um bispo pode morrer, mas a Igreja de DEUS que está no povo jamais morrerá”.
A guerra civil terminou com a assinatura dos Acordos de Paz de Chapultepec em 1992. Soube mais tarde que um dos guerrilheiros que nos visitaram sob o nome de guerra de Leonel, era o Salvador Cerén, que chegou a ser eleito presidente da República de El Salvador pelo partido da FMLN.
Quanto a você, Comandante Esther eu gostaria muito de saber se você está…viva ou morta.
(*) Tadeu França
Ex-deputado federal constituinte.
Foto: Reprodução/4TV
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