Narraturras e o Repúdio Adormecido

O espetáculo substitui a obra, o rótulo apaga o conteúdo

Vivemos um tempo em que o povo já não consome literatura; só Narraturras — narrativas burras, embaladas para saciar, não para nutrir. O espetáculo substitui a obra, o rótulo apaga o conteúdo.

Até grandes intelectuais não escapam desse risco. Eduardo Bueno, historiador brilhante, acabou por “comemorar” a morte de um ativista americano de falas deploráveis. Seu erro não nasceu do desconhecimento, mas da confiança de que o público compartilhava sua informação. Não compartilhava. O que deveria soar como crítica soou como aplauso ao terror.

Esse episódio revela uma ferida mais profunda: o repúdio, essa força moral que deveria despertar em nós diante do intolerável, permanece adormecido. Sem ele, a ironia perde limite, a crítica se distorce e as palavras se voltam contra o próprio mensageiro. Diamantes brutos têm valor, mas não transparência — e era justamente isso que os produtores de Narraturras desejavam; e, Eduardo, os deu!

Não era hora de “justificar” o ocorrido pela má história da vítima, mas de condenar o ato de terror, intrinsecamente ligado à cultura americana: um jovem de 22 anos, com acesso facilitado a armas e precisão letal, mata, não por ideologia, por discordância. O absurdo é ainda maior quando lembramos que a vítima defendia, abertamente, a liberdade que o matou. Aqui, sim, caberia uma Buena — crítica elegante e certeira — que gostaríamos de assistir.

Eduardo jogou gasolina em um incêndio que os beija-flores vêm tentando apagar há muito tempo. E, se não nós, beija-flores, quem lembrará que até diante do absurdo existem fronteiras que não se cruzam?

Se não nós, quem despertará o repúdio, que repousa no submundo, para que ele lance luz em meio ao ruído das Narraturras?

Porque, se não o fizermos, tudo o que restará é a anestesia coletiva — e o aplauso vazio às narrativas burras que governam esses tempos.


(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão