Aos mestres, com carinho


Apesar de todo o cenário de avanços e contradições, é fundamental que se criem políticas que pensem e focalizem os anseios da carreira docente
Dia 15 de outubro, Dia dos Professores. Quanto podemos discorrer sobre essa data e sobre a importância social e a contribuição dos educadores para este país, com uma das assimetrias sociais mais profundas do planeta. Para além das referências laudatórias ao “mestre com carinho”, que certamente são mais que merecidas, precisamos pensar essa data dosando a ideia do romantismo vocacional desses profissionais. É fato que o(a) bom(a) professor(a) descortina o mundo, ensinando os alunos a verem a poesia no cotidiano, a beleza da natureza, dos ciclos da vida, dos astros, da botânica, dos números e das palavras — afinal, como diria Paulo Freire, nosso maior educador: “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Em sua prática, quando dotada de intencionalidade pedagógica, o professor tira os véus e os enigmas que encobrem a realidade. Mas também se realiza e se redescobre nesse processo; afinal, trata-se de um processo dialético-dialógico e, sobretudo, humanizador.
Todavia, a premência nesta data consiste em pensarmos as lutas, os desafios e as condições de trabalho da categoria docente, por vezes precarizada e adoecida. Sabemos que o Brasil tem uma dívida histórica com o terreno educacional. Apenas na Constituição de 1988, na curva recente da história, a educação tornou-se uma obrigação do Estado. Antes, numa tradição política clientelista que marca a nossa formação, a instrução pública era relegada a uma espécie de “favor”, uma benesse do Estado. Toda essa conquista foi fruto de muita luta dos educadores, movimentos sociais e intelectuais, como Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro, do Movimento pela Escola Pública, já na década de 1950, em um Brasil que gestava um projeto desenvolvimentista e verdadeiramente nacionalista — interrompido em 1964. Movimento esse que teve sua gênese em uma cena anterior, nos intelectuais da Escola Nova, com o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932, sob o comando de figuras proeminentes como Anísio Teixeira, Fernando Azevedo, Lourenço Filho, entre outros.
Feita a digressão, de lá para cá certamente tivemos avanços, especialmente na Nova República e no processo de redemocratização, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB, 1996), mais recentemente o Fundeb e o Fundef — garantias de fundos de financiamento obrigatórios para a educação básica —, o ProUni, o Enem, e a inserção de milhares de jovens oriundos das camadas populares no ensino superior, algo que historicamente era relegado aos filhos da elite deste país. Por fim, e não menos importante, a criação dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs), a qual julgo a maior política educacional propalada neste país. Mais recentemente, há poucos dias, tivemos a criação do Sistema Nacional de Educação (SNE), uma espécie de “SUS da educação”, que permitirá uma identificação nacional das escolas e realidades educacionais do país. Um sistema que proporcionará uma radiografia das assimetrias nas realidades educacionais e balizará as políticas públicas para o setor.
Apesar do cenário de avanços, precisamos pensar nos recuos, fraturas e nas intermitências e disputas desse projeto, focalizando, como prometido, a carreira docente. Vivemos um “apagão da educação”: os jovens não se sentem atraídos pela carreira docente, dada a precarização da profissão. A lista é infindável nesse cenário melancólico que explica esse desencanto com a carreira: baixos salários, sobrecarga de trabalho, burocracia escolar, indisciplina dos estudantes, falta de estrutura e condições de trabalho para lidar com alunos com toda sorte de vulnerabilidades — sociais, psíquicas, neuroatípicas etc. Somado a esse quadro, a plataformização da educação se traduz em metas irreais que maquiam a real situação do desempenho escolar e retiram a autonomia pedagógica.
O corolário de problemáticas não para por aí: falta de formação continuada, pouco incentivo à pós-graduação, além da ausência de suporte e rede de proteção e apoio emocional e psicológico. Há uma distopia preocupante em muitos contextos em que a escola se torna um espaço insalubre, uma máquina de adoecimento mental e desencanto.
Outro aspecto desafiador reside no advento das novas tecnologias e da tão aventada Indústria 4.0 — a chamada Quarta Revolução Industrial —, ensejando avanços como a robótica, o big data, a automação e, sobretudo, o avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA). A transição de uma sociedade industrial para uma sociedade digital, para o mundo na nuvem (cloud computing), suscita intensos debates sobre as novas ferramentas: heroínas ou vilãs do terreno educacional? Pesquisa recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que sete a cada dez estudantes utilizam o ChatGPT para a realização de suas pesquisas escolares, e 56% dos professores o utilizam para planejar suas aulas. Esse dado refere-se a países mais pobres. Longe de negar os avanços tecnológicos, é seminal questionar a formação para o manuseio dessas ferramentas. Os professores e estudantes estão sabendo programar essas novas tecnologias ou estão sendo programados por elas? Em síntese, o professor está no meio desses novos desafios contemporâneos.
Apesar de todo o cenário de avanços e contradições, é fundamental que se criem políticas que pensem e focalizem os anseios da carreira docente. O professor precisa voltar a sonhar com o “inédito viável”, com a mudança do mundo a partir de sua prática — sem ilusões e romantizações pueris e ingênuas que subalternizem a carreira, mas com uma utopia norteadora de quem, como diz o poeta, tem em si todos os sonhos possíveis. Já diria Gonzaguinha: é preciso acreditar na rapaziada — e essa mudança passa pela valorização do professor como agente de transformação da realidade. É um dia de homenagens merecidas, mas, sobretudo, um dia de reflexão e de luta.
Aos mestres, com carinho!
(*) Joel Júnior Cavalcante é professor, sociólogo e comentarista político
Ilustração: Freepik
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