O perigoso desmonte do diploma – e o incentivo à ignorância


O problema do Brasil nunca foi o excesso de estudo. Pelo contrário: sempre foi — e ainda é — a falta dele
Nos últimos dias, uma declaração vinda do Reino de Tão-tão Distante, onde um ogro virou príncipe por sorte — e não por mérito — chamou atenção.
Disse o ogro: “O diploma cada vez tem menos relevância.”
De fato, se a frase tivesse saído de um ogro genuíno, preocupado apenas com seus banhos de lama e o eco de seus arrotos, faria todo o sentido.
Mas vinda de um presidenciável que governa o maior estado da federação brasileira? Aí, nobre público, a conversa muda completamente.
Se o Ogro Carioca, governador por obra do destino do Estado de São Paulo, tivesse dito isso num país plenamente alfabetizado, com ensino sólido, leitura diária e jovens disciplinados, talvez até colasse como reflexão sobre o mercado moderno. Mas no Brasil republicano, onde metade dos estudantes tem dificuldade para interpretar um texto simples, essa frase deixa de ser opinião e passa a ser o supra-sumo da irresponsabilidade política.
Porque, convenhamos: a prática supera a teoria, sim — mas não a substitui.
A frase pode até soar elegante em auditórios climatizados, entre empresários que confundem fluência com genialidade. Mas, no chão quente e poeirento da vida brasileira, ela vira outra coisa.
Na mão de uma juventude que já valoriza pouco o estudo, transforma-se em autorização: “Se até um governador diz que diploma não vale nada, pra que estudar?”
E é aqui que mora o perigo: num país onde o hábito da leitura é frágil, onde o celular domina mais que os livros, onde até universitários tropeçam em textos médios, desestimular o estudo é um atentado social. É como dizer a um náufrago: “A boia não vai lhe salvar!”
Ora, nobre ogro, quando se está se afogando, a bóia é tudo o que separa o vivo do cadáver. E, para milhões de brasileiros, o diploma — falho, imperfeito, limitado — ainda é essa boia. É o único instrumento minimamente reconhecido para abrir portas, disputar oportunidades e romper o ciclo de pobreza. Tirar seu valor, ainda que na retórica, é abrir mão da maior ferramenta de ascensão social que este país conseguiu criar.
Monteiro Lobato, que entendia o Brasil melhor que muitos governantes de outrora e quase todos os ignorantes de agora, cravou:
“Um país se faz com homens e livros.”
Não com slogans de LinkedIn.
Não com improvisos de auditório.
Não com frases que soam modernas, mas que alimentam a miséria intelectual.
O problema do Brasil nunca foi o excesso de estudo.
Pelo contrário: sempre foi — e ainda é — a falta dele.
Por isso, frases como essa não são apenas inoportunas.
São perigosas.
Ecoam num terreno onde a educação já está por um fio.
E quem governa deveria saber: num país que precisa desesperadamente de livros, qualquer palavra que desvalorize o diploma se transforma em combustível para a ignorância — e não para a transformação.
(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão
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