Onde está a felicidade?


A vida mostra que a verdadeira felicidade não se compra, se conquista durante uma existência
A troca de mensagens resultou em uma oportuna reflexão. A jovem levantara bem cedo e antes do amanhecer já estava em suas atividades laborais, justificando que “queria ficar rica logo”. Essa afirmação levou a uma réplica imediata e automática, ante a singela espontaneidade: “… mas você já é rica. Goza de ótima saúde, tem formação acadêmica, possui uma sólida estrutura familiar, conquistou um companheiro nota 10, está sempre rodeada por bons amigos… isso não é uma riqueza incalculável?”.
Esse diálogo despretensioso, mas incrivelmente sincero tem o poder de suscitar distintas considerações sobre o tema. Ainda que sob diferentes perspectivas, prevalece a ideia de que as condições socioeconômicas propiciam e influenciam sobremaneira o resultado do questionamento, porém a dúvida permanece: onde realmente está a felicidade?
A se julgar pela enormidade de publicações nas redes sociais, atualmente a felicidade apresenta visual consumista e está baseado no “ter”. Ter um smartphone top de linha, ter um SUV híbrido ou uma caminhonete invocada e recheada de tecnologia embarcada, ter roupas caríssimas, um Rolex com preço de carro popular, mostrar com orgulho os numerosos carimbos no passaporte, ter um sobrado de alto padrão no condomínio chique, apartamento na praia com piscina de borda infinita, etc, etc. Essa é a máxima que move os que fantasiam a felicidade moldada pelo saldo bancário e consequentemente pelo poder, já que essa dupla inseparável costuma desfilar em uníssono pelos privilegiados segmentos da sociedade. Logo, por analogia, poder-se-ia simploriamente concluir que aqueles cujas algibeiras se apresentam permanentemente magérrimas são infelizes inveterados, o que, definitivamente, não corresponde com a realidade.
A vida mostra que a verdadeira felicidade não se compra, se conquista durante uma existência. E que podemos encontrá-la nos mais inusitados lugares. Não necessariamente nas dependências de uma mansão cinematográfica, no incomparável conforto, luxo e status de um veículo importado ou em tudo o que o dinheiro pode proporcionar. Mas principalmente nas coisas genuínas, nas atitudes e condutas honestas, que revelam o caráter reto das pessoas. Felicidade que habita um lar harmonioso, onde o respeito e a alegria da prole são revelados em um simples olhar.
Felicidade é encontrar-se consigo mesmo, ter plena consciência de sua importância nesse mundo, saber compreender o semelhante em suas carências e necessidades. Felicidade é viver a plenitude terrena de acordo com suas posses, sem passar pela vida ambicionando aquilo que jamais estará ao alcance. Felicidade é poder usufruir plenamente a dádiva divina de levantar todo dia, reconhecendo as maravilhas da sábia natureza através dos aromas das flores e do canto melodioso dos pássaros. É olhar no espelho e ver o reflexo de quem cumpriu com sua missão nesse mundo, durante a estadia temporária a que invariavelmente, estamos sujeitos. É ter o discernimento de identificar e internalizar as contingências da vida, que delimita e orienta o destino da cada indivíduo. Felicidade rima com simplicidade, com desapego, amor, resiliência. A felicidade, portanto, está onde nós a erigimos. Simples assim.
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR
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