Boemia carioca, tá tudo lá no livro…

Ótimo para terminar 2026. Sim, sempre um ano à frente

José Carlos Oliveira, ou apenas Carlinhos Oliveira. Um dos maiores cronistas brasileiros. Por mais de 20 anos ocupou o nobre espaço da crônica no Jornal do Brasil. Num tempo em que as histórias ganhavam força. Valia o que se contava. Em “O homem na varanda do Antonio’s”, Carlinhos Oliveira retrata com leveza e humor a boemia carioca das décadas de 60 e 70. O livro organizado por Jason Tércio é delicioso. Ótimo para terminar 2026. Sim, sempre um ano à frente. A gente se lambuza nas histórias e vê que nem tudo está perdido. Sempre existe um boteco aberto para que possamos se sentar e rever o que se fez e, claro, fazer melhor. Mas o pior não se descarta, ao menos por enquanto.

A noite (ela), esse enigma ilustra os escritos dos poetas e cronistas. Para Carlinhos Oliveira, uma companheira íntima. Como ele diz: “Conheço bem a noite; Nela não me perco, pelo contrário: ela me sitia, circunscreve e julga”. E cada crônica revela um julgamento e a sentença, que surgem ali entre mesas, cadeiras e balcões. Nada escapa à linguagem refinada, que mais parece um menino curioso que degusta um doce de vitrine. Tudo acontecia ali, naquela mágica Ipanema. Ele, copo à mão, e um olhar crítico e irônico.

Noitadas inesquecíveis ou nem tanto, mas tudo valia a pena. A alma era pra lá de grande. No Antonio’s, no Jangadeiro, no Veloso, no Zeppelin ou no amistoso Mau Cheiro. Para citar alguns. Interlocutores não faltavam. Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos, Leila Diniz, Jaguar ou apenas um sujeito que chegava com as calças arregaçadas empurrando um carrinho de mão. Vendedor de guloseimas. Ou a mulher que, para comprar leite para o filho, pedia ajuda. Questões sociais se avolumam na noite. Ou ainda aquele senhor de óculos de armação preta, que se sentava todos os dias, sozinho, à mesma mesa. Personagens da noite…

Mas assunto não faltava. Se faltasse, ele era o assunto. “Acordei às 3 horas da manhã e disse: Há muito tempo não vejo a noite. E fui ver a noite”. Diz que o Monsieur Pujol já tinha terminado; era o dia da estreia. “Dia de amadores: bebem sofregamente e apagam rápido”. Monsieur Pujol foi um refinado restaurante que existiu em Ipanema, comandado pelo expert e famoso Alberico Campana. Ali Carlinhos Oliveira ouviu lamentos e exaltações boêmias e conta uma, como ele mesmo diz: “Aquela história do maluco que prometeu à mulher que no dia seguinte seria outro homem?” Melhor nem contar. Tá no livro…

Melhor também encerrar esta breve resenha. Hoje, sábado, pós Natal. Escrever sobre Carlinhos Oliveira é arriscado. Ainda mais degustando um vinho branco, como estou agora. Não deixem de ler “O homem na varanda do Antonio’s”. Em pouco mais de 300 páginas, a gente ri sozinho. Tá tudo lá. A boemia carioca dos anos 60 e 70. Exagerei? Mas quando se fala de Carlinhos Oliveira, o exagero faz parte. Tá tudo lá, no livro. Boa leitura…