O saber como herança, o conhecimento como capital


Preservar conceitos não significa congelar a história. Significa saber de onde se parte para decidir para onde se vai
Há uma confusão deliberada no debate público brasileiro: trata-se herança como privilégio apenas quando ela é material, e ignora-se — por conveniência ou ignorância — a herança intelectual. O resultado é um país que combate o patrimônio, mas despreza o capital mais decisivo de todos: o saber.
Conhecimento é herança. E talvez a mais poderosa. Ideias, conceitos e linguagem atravessam gerações. Não se dissipam com inflação, não quebram com crise fiscal, não se perdem com mudança de governo. Quando uma sociedade abandona seus conceitos fundadores, ela não se torna moderna; torna-se amnésica.
A esquerda e a direita nasceram como posições sociais, não como listas de pautas. Foram, antes de tudo, lugares ocupados no mundo: quem produzia e quem acumulava, quem trabalhava e quem governava. Isso é herança conceitual. Jogar fora essa matriz para adotar rótulos morais é romper com o próprio alfabeto da política.
O Brasil não “redefiniu” esquerda e direita. O Brasil permitiu que fossem sequestradas pela guerra cultural. O conceito virou xingamento; a categoria analítica virou torcida organizada. Quando se diz que “a esquerda é isso” ou “a direita é aquilo”, o que se faz não é definição — é julgamento. E o julgamento moral não organiza a realidade; apenas a inflama.
A herança intelectual serve exatamente para o oposto: ordenar o caos, estabelecer limites, distinguir fenômenos. Sem esse arcabouço, qualquer coisa “pega”. E, se “pegou”, vira verdade. É assim que slogans substituem ideias e emoções ocupam o lugar da razão.
Existe uma desigualdade que raramente entra no debate público: a desigualdade de capital intelectual. Famílias, grupos e instituições que preservam linguagem, método e memória acumulam poder silencioso ao longo do tempo. Não é coincidência que sociedades fortes cuidem obsessivamente de seus conceitos. Quando essa herança é desprezada, abre-se espaço para narrativas simplistas e para líderes que se alimentam delas.
Preservar conceitos não significa congelar a história. Significa saber de onde se parte para decidir para onde se vai. Contexto adapta; não apaga. Atualiza; não falsifica. A tradição, quando viva, é ferramenta crítica. Quando abandonada, vira superstição ou caricatura. Defender a herança intelectual é defender a possibilidade de discordar com rigor e não com gritos.
Ao abrir mão da herança conceitual, o Brasil paga um preço alto: debates rasos, polarização estéril e políticas públicas guiadas por rótulos. O país passa a discutir nomes, não problemas; símbolos, não estruturas. Conhecimento é capital porque produz discernimento. E discernimento é o que impede que a política vire apenas um ringue moral.
Há ainda um paradoxo revelador no debate brasileiro: grupos que se apresentam como guardiões do conservadorismo cristão nasceram, historicamente, de uma ruptura com ele. O protestantismo e, mais especificamente, o evangelicalismo surge como cisão da tradição cristã estabelecida, rejeitando mediações, hierarquias e a própria noção de continuidade institucional que caracteriza o conservadorismo clássico.
Conservadorismo, por definição, é apego à herança, à transmissão lenta e acumulativa de valores, ritos e autoridades. Ruptura é o seu oposto. Ao se vender como “conservador”, um movimento nascido da quebra da tradição incorre numa contradição fundamental: reivindica a linguagem da continuidade enquanto pratica a lógica da substituição.
Esse descompasso ajuda a explicar por que, no Brasil, tradição vira slogan e moralidade vira identidade. Em vez de conservar um patrimônio simbólico, seleciona-se um conjunto de costumes contemporâneos e proclama-se eterno. A herança deixa de ser recebida; passa a ser fabricada. O resultado é um conservadorismo sem tradição — barulhento, reativo e dependente de rótulos. Não conserva: combate. Não transmite: impõe. E, ao fazê-lo, contribui para o mesmo empobrecimento conceitual que diz combater.
Quem despreza a herança do saber costuma fazê-lo em nome do “agora”. Mas o presente sem passado não é atual — é frágil. Uma sociedade que não protege seus conceitos não avança: tropeça. Conhecimento é herança porque organiza o mundo antes de transformá-lo. E é capital porque produz discernimento. Sem discernimento, a política deixa de ser projeto e vira apenas um ringue moral.
(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão
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