Existências complicadas ou destruídas

A senadora Soraya Thronicke protagonizou um monólogo devastador

O título é, de certo modo, criação minha, mas o texto, li e  reproduzo, dando crédito ao final, depois acrescento  um pequeno comentário. 

Em uma sessão carregada de tensão e simbolismo na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos atos golpistas, a senadora Soraya Thronicke protagonizou um monólogo devastador.

O alvo foi Argino Bedin, empresário de 73 anos conhecido como “Pai da Soja”. O que se viu não foi apenas um interrogatório jurídico, mas uma autópsia psicológica pública sobre a traição, o medo e o custo altíssimo da lealdade cega.

O Mito do “Salvador” do Agro: O pai da soja – Argino Bedin permaneceu em silêncio, ouvindo cada palavra de Soraya. Ele representa a elite do agronegócio que despejou fortunas no movimento bolsonarista, movida por uma fé inabalável. No entanto, Soraya começou desmontando a base dessa crença.

Ela resgatou a história de luta da família Bedin, migrantes gaúchos que desbravaram o Mato Grosso em carros de boi. Listou os presidentes que a família atravessou enquanto enriquecia: Geisel, Figueiredo, Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma, Temer.

“Dizer que o agronegócio se tornou rico e próspero após Bolsonaro é uma mentira”, afirmou a senadora categoricamente. Ela pontuou que a prosperidade do empresário foi fruto de décadas de trabalho duro, e não um milagre operado nos últimos quatro anos. Foi o primeiro banho de água fria na narrativa de que apenas a extrema-direita defende o produtor rural.A Armadilha do Medo-

Por que um homem realizado, aos 73 anos, arriscaria tudo para financiar atos antidemocráticos? Soraya ofereceu a resposta: O Medo Fabricado.

“O senhor foi movido pelo medo. Medo de que suas terras fossem confiscadas, medo de ter que dividir sua casa, medo de que todas as igrejas fossem fechadas, medo da liberação das drogas…”

A senadora expôs como a máquina de desinformação (fake news) manipulou a psique de pessoas como Bedin, transformando-os em soldados financeiros prontos para “salvar o país” de ameaças fantasmas. Soraya classificou o fenômeno como “dissonância cognitiva” – um estado onde a pessoa nega a realidade para se agarrar a uma crença distorcida.

O “Bode Expiatório” e a Ingratidão do Líder – O ponto mais doloroso do discurso foi quando Soraya tocou na solidão de Bedin. Enquanto ele estava ali, com o risco de prisão e o patrimônio bloqueado, onde estavam aqueles que ele idolatrava?

“O senhor está servindo de bode expiatório”, disparou Soraya. Ela ressaltou que os generais, os políticos do alto escalão – os verdadeiros artífices e beneficiários do caos – estão protegidos, “cuidando de si mesmos”. Bedin, o financiador, foi deixado para trás para pagar a conta.A comparação mais cruel veio com a menção ao Pix. Soraya lembrou que o ex-presidente Bolsonaro arrecadou mais de 17 milhões de reais em doações via Pix de seus apoiadores. Mas, em vez de usar esse dinheiro para ajudar os “patriotas” presos ou falidos como Bedin, o ex-presidente investiu o montante.

“Eu não vi ninguém pedir Pix para o senhor. O senhor tem familiares ricos que podem ajudar, mas o povo doando? Esqueça”, alertou ela, expondo a “pachorra” (audácia) da liderança que lucra enquanto a base sofre.

O Aviso Final – Ao encerrar sua fala, Soraya Thronicke deixou um aviso gelado e realista: “Alexandre de Moraes não vai ter piedade.” Do site Pé na Areia e página de grupo de Facebook de Milton Carlos dos Santos.

Meu comentário (Akino): Quantas pessoas tiveram suas existências complicadas ou destruídas por seguirem cegamente Bolsonaro. Cito algumas: Anderson Torres e Ramagem, carreiras garantidas na PF, perderam. Bebianno perdeu a vida. Carla Zambeli, Joyce, Frota, Mauro Cid, e outros militares que perderam suas carreiras. Fora os ‘peixinhos miúdos’, como uma moça de Presidente Prudente, que trabalhava no prédio que uma irmã minha mora. Família pobre conseguiu formar-se em direito, ainda não exercia e foi a Brasília e lá presa. Depois disso teve sua vida virada pelo avesso. Lamentável, inegável os males causados por Bolsonaro ao Brasil e aos brasileiros. Mas muitos ainda o idolatram, o que é inacreditável.

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado