A imbecilidade é uma escolha

Há pessoas que são tornadas ignorantes e há pessoas que se escolhem como ignorantes

A palestra do londrinense Mario Sergio Cortella, de 2022, nunca estava tão atual.

A história de filosofia é muito chamada quando a humanidade tem algumas crises mais fortes. No momento que a ciência tem os seus limites, a religião tem seus limites, a arte encontra seus limites, a filosofia, aquela tia velha que vive trancada no 4º lá no fundo, é chamada para vir até a frente para dizer E aí a gente palpita, tanto que em 2020 vocês viram, muitas e muitas de nós dá de filosofia, da mentalista, né, opinando. A pergunta que mais me fizeram foi, você acha que a humanidade sairá melhor dessa pandemia? Ela foi feita essa pergunta para mim em abril de 2020, em maio, em junho, julho, agosto, porque a gente achava que ia acabar e não acabava. E toda hora tinha que responder não. Porque tinha gente que era imbecil antes da pandemia, persistiu na imbecilidade durante a pandemia e continuará animadamente imbecil após a pandemia.

A imbecilidade é uma escolha. Há pessoas que têm deficiência. Isso não é escolha. Ser imbecil é uma escolha. Aliás, porque a imbecilidade em larga escala resulta de uma incapacidade decidida de não pensar melhor, de não refletir.

Pessoas imbecis têm uma retórica furiosa. Isto é, na hora de tentar convencer você de algo, não buscam convencer. Vem, buscam te derrotar, buscam te aterrorizar. Gritam, impõem o pânico para ver se você, em vez de argumentar, recua.

O grande arcebispo, Prêmio Nobel da Paz, na África do Sul, quem morou na África do Sul, se lembra da África do Sul, é o único lugar do mundo que tinha na mesma rua ali no Soweto, lembra? Dois Nobel da Paz, que morava na mesma rua o bispo Desmond Tutu e o Nelson Mandela. Nós não temos ainda um Nobel. Poderemos ter. Mas ali na África do Sul, na mesma rua, moravam dois nobéis, Nelson Mandela e Desmond Tutu. E Desmond Tutu, que morreu ano passado, ele dizia sempre que o pai dele o advertia dizendo “filho, não eleve a voz, melhore teus argumentos. Não aumente a voz, melhore teus argumentos”. E é interessante porque a pessoa medíocre, ela tem na imbecilidade uma forma de socorro.

Uma pessoa imbecil não é aquela que tem menos escolaridade. Aliás, porque tem muita gente que tem muito mais escolaridade do que eu e me ultrapassa, e muita gente que tem menos escolaridade do que eu e me ultrapassa em várias coisas? Não é a escolaridade que avalia, mas é a capacidade de vivência refletida, de capacidade de aprendizado contínuo, mesmo que não seja pela escolaridade.

Você conhece gente que não tem, às vezes, a tua formação escolar? Eu, por exemplo, que tenho doutorado. Eu conheço dezenas de pessoas que são muito melhores do que eu. E conheço outras que não são. A gente junta e cresce. Nem sempre é a escolaridade que mostra que alguém não é imbecil. Você pode ser imbecil com várias condições.

Eu, uma vez que aí não era uma armadilha muito forte, era uma palestra na cidade de Belo Horizonte assemelhada a essa, que agora nós estamos aqui, e como aqui, ao final, era só uma reflexão, não haveria um debate, assim como aqui, não haveria lá. E quando eu terminei a palestra, era um congresso de enfermagem, havia duas mil enfermeiras no congresso e quando terminou.

Eu estava agradecendo e saindo, e antes que eu saísse de vez, uma enfermeira lá no meio falou, professor, o senhor pode responder uma pergunta antes de ir embora? Eu disse, claro. Ela falou, olha que pergunta ele fez, ela falou: “O que o senhor quer que fale do senhor no teu velório?”. Difícil. Eu, filosofia, fiz uma volta, comecei a falar de Platão, Aristóteles, Heráclito, Parmendes, Zenão, Anaximenes, Anaxágoras. Falei, eu vou pegar essa enfermeira, ela vai ver, ela tem me provocado. Fui dando uma volta, depois de uns 8 minutos eu virei para ela e falei assim, e você? O que você quer que fale de você no teu velório? Ela disse, eu quero que fale assim: Nossa, ela está mexendo.

Você já imaginou que sabedoria, que força de inteligência. Por isso, a imbecilidade é uma escolha protetiva. Pessoas que escolhem ser imbecis não são aquelas que escolhem ser ignorantes, porque há pessoas que são tornadas ignorantes e há pessoas que se escolhem como ignorantes, que negam a realidade, que não têm argumentação, que preferem a ameaça do que o diálogo.

Foto: Divulgação/Chico Max