A fábula do governo gastão

A mecânica invisível da transferência de renda: onde o orçamento público encontra o gargalo dos juros

No Brasil, tornou-se hábito repetir que o grande problema nacional é o “governo gastão”. A frase ecoa em redes sociais e editoriais econômicos como uma verdade absoluta, capaz de explicar, sozinha, a inflação, a dívida e o atraso do país. Mas convém olhar os números antes de repetir slogans.

O investimento público da União — aquele que constrói estradas, hospitais e escolas — ocupa uma parcela ínfima do orçamento. O Estado brasileiro investe pouco. Muito pouco. Ainda assim, a narrativa de que o país está sufocado por gastos sociais permanece hegemônica. Curiosamente, quase ninguém fala do preço do dinheiro.

O Brasil convive há anos com uma das taxas de juros reais mais altas do mundo. Em teoria, juros elevados servem para conter a inflação. O problema é que existe um limite raramente discutido: o ponto de saturação dos juros. Quando esse ponto é ultrapassado, o remédio muda de natureza. A política monetária deixa de ser uma ferramenta de estabilização e passa a funcionar como um poderoso mecanismo de transferência de riqueza para o topo da pirâmide, sustentado por dois pilares invisíveis ao grande público:

O Orçamento Oculto
Enquanto a sociedade briga por frações de bilhões em áreas vitais como saúde e educação, o Comitê de Política Monetária (Copom) decide, em reuniões de poucas horas, o destino de centenas de bilhões de reais. É o chamado “orçamento oculto”: a cada alta da Selic, uma massa colossal de recursos é transferida do Tesouro diretamente para os detentores da dívida — em sua grande maioria, o sistema bancário. É um gasto bilionário decidido sem o escrutínio do Congresso ou o debate popular.

A Seletividade do “Risco Fiscal”
Existe uma miopia conveniente na análise do risco econômico. O mercado e o Banco Central reagem com rigor quase punitivo a gastos sociais, rotulando-os imediatamente como inflacionários. No entanto, raramente apontam o impacto inflacionário do déficit causado pelo pagamento de juros altos. Ao remunerar o capital rentista com taxas estratosféricas, o Estado injeta liquidez justamente onde não há consumo produtivo, mas sim acumulação, aprofundando o abismo social enquanto trava a economia real.

    Nesse contexto, a independência do Banco Central merece uma pergunta simples: independente de quem?

    Se o sistema financeiro é o maior detentor de títulos da dívida pública, e se os juros determinam o rendimento desses títulos, não é difícil perceber quem se beneficia quando o preço do dinheiro permanece persistentemente elevado. Casos recentes envolvendo instituições como o Banco Master e a rapidez de certas expansões no setor financeiro apenas aumentam a desconfiança sobre a proximidade entre regulador e regulado — uma relação que deveria ser marcada pela vigilância, não pela complacência.

    Talvez o problema brasileiro não seja apenas o gasto público. Talvez seja a recusa em discutir o ponto em que os juros deixam de combater a inflação e passam apenas a redistribuir riqueza — não para quem produz, mas para quem vive do rendimento do dinheiro.


    (*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão