Nem pintada de ouro

Há quem diga, nos corredores, que certos conselheiros já deveriam ter sido convidados a deixar o castelo há muito tempo

Caríssimos súditos desta nobre cidade, nos salões da velha monarquia, onde outrora reinavam a discrição e o bom senso, aprende-se cedo que algumas rainhas fizeram história pelo brilho da sabedoria, enquanto outras ficaram conhecidas pelo barulho dos seus próprios passos.

Algumas, é verdade, pecaram pelo exemplo. Houve aquelas que se cobriram de ouro em pó para impressionar a corte, como se o reluzir do corpo pudesse substituir o peso da prudência. Outras, como a antiga rainha Atalia das Escrituras, tomaram o trono à força e governaram sob o eco do medo. E não nos esqueçamos de Jezabel, célebre por manipular o reino com mãos firmes e língua afiada, uma lição que atravessou séculos sobre os riscos do poder exercido sem freio.

Mas nem todas as soberanas foram assim. Houve Ester, estratégica e silenciosa, que soube agir na hora certa. Houve a Rainha de Sabá, que buscou sabedoria antes de buscar aplausos. Essas entenderam um segredo simples: quem governa de verdade não precisa gritar para ser ouvido.

Pois bem.

Em uma importante cidade do interior, um reino moderno, com ruas asfaltadas e palácio de vidro, os tempos têm sido turbulentos. A corte enfrenta crises públicas, a oposição afia as espadas da crítica, e alguns ministros parecem tropeçar mais do que caminhar. Há quem diga, nos corredores, que certos conselheiros já deveriam ter sido convidados a deixar o castelo há muito tempo. Mas, em meio a esse cenário, surge a figura da rainha.

E que rainha.

Quem se lembra dos reinados passados recorda que a soberana quase não aparecia. Era discreta, elegante, dedicada às causas sociais e às festas que davam vida ao reino, aqueles bailes memoráveis que reuniam a cidade inteira, onde a política se misturava à alegria e o povo se sentia parte do espetáculo. Hoje, os salões estão silenciosos. O brilho das festas se apagou, e o clima, dizem, ficou mais pesado que o lustre do salão principal.

As más línguas, sempre elas, tão fiéis quanto implacáveis, cochicham que, no passado, a rainha-mãe, matriarca de um clã poderoso, segurava as rédeas com firmeza. Era ela quem lembrava à jovem soberana que o trono exige compostura. Mas o tempo, soberano maior que qualquer coroa, tratou de enfraquecer essa vigilância. E agora, dizem os serviçais, a rainha voa mais alto do que deveria, sem quem lhe segure as asas.

Relatos de bastidores falam de discussões acaloradas, ordens dadas em tom elevado e uma presença que se impõe mais pelo volume do que pela virtude. Nos corredores administrativos, entre papéis e cafezinhos frios, comenta-se que o desejo de protagonismo cresce à medida que os aplausos virtuais aumentam. Os “likes”, afinal, tornaram-se a nova moeda da corte.

Há também um murmúrio persistente, quase um suspiro coletivo, de saudade. Saudade de uma antiga rainha dos tempos Maia e Asteca, discreta como uma sombra elegante, que surgia apenas quando necessário e deixava atrás de si simpatia e simplicidade. Uma presença leve, que entendia que, no jogo do poder, menos é quase sempre mais.

Porque governar não é desfilar.
E influência não é autoridade.

No fim das contas, a velha etiqueta da monarquia continua atual: quem deseja mandar no reino precisa antes conquistar o voto do povo.

O resto é apenas figurino.

Daquela que sabe que o verdadeiro poder não está na coroa, está na postura de quem a usa, Madame Savage.

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