O caminho da manada

A realidade mostra consumidores completamente desvirtuados em suas necessidades, adquirindo bens e serviços supérfluos, influenciados pelo marketing agressivo e muitas vezes desonestos em sua essência

Segundo dados do Banco Central, o endividamento das famílias brasileiras atingiu níveis recordes em 2026, correspondendo a 49,9% da renda anual. Os lares com algum tipo de divida alcançam 80,9%, um dos maiores índices já registrados e as dívidas se concentram em cartão de crédito, carnês ou boletos e financiamentos diversos. O governo federal disponibiliza ferramentas para o auxílio financeiro, como o programa Desenrola Brasil e mantém parceria com a Serasa, que é uma empresa privada brasileira especializada em análise de crédito que funciona como um banco de dados, reunindo informações financeiras de consumidores e empresas. Essas iniciativas visam minimizar os efeitos danosos da inadimplência, comprovadamente fator de instabilidades que acabam por comprometer significativamente a qualidade de vida das pessoas.

Apesar de o salário mínimo do País não oferecer condições para garantir satisfatoriamente a sobrevivência digna do assalariado, os dados apontam uma tendência de endividamento sem controle e em trajetória ascendente. É fato comprovado de que muitas pessoas não conseguem resistir às tentações do comércio, seja por ignorância, influências da modernidade ou mesmo alguma psicopatologia como transtornos de ansiedade e outros. A realidade mostra consumidores completamente desvirtuados em suas necessidades, adquirindo bens e serviços supérfluos, influenciados pelo marketing agressivo e muitas vezes desonestos em sua essência. Não é preciso ser observador atento para constatar a impulsividade dos clientes no comércio em geral. Itens dispensáveis acabam se sobressaindo aos de necessidade básica, uma mostra de que a lista de compras foi irresponsavelmente desprezada.

A situação atual expõe ainda um comportamento de manada. Em vésperas de datas comemorativas como Natal, Páscoa, dia das Mães, dos Pais, dos namorados a dopamina coletiva atinge seu pico máximo na busca por recompensas emocionais. Como os ovos de chocolate, cujas embalagens chamativas estimulam as vendas e afastam questionamentos sobre preços ou qualidade do produto. As demonstrações de amor também não fogem à regra do apelo midiático. Produtos de grifes famosas são transformados em presentes e nessas ocasiões o bom senso é substituído pelo cartão de crédito. Na lista insana da irresponsabilidade estão aqueles que se julgam merecedores das novidades tecnológicos. Um smartphone com apenas alguns meses de uso é rapidamente substituído pelo último lançamento da marca. Tudo devidamente registrado nas redes sociais, afinal, a validação pública é imprescindível nessas ocasiões.

Nesse rastro de inadimplências, desequilíbrio financeiro e instabilidades familiares vivem os endividados contumazes. Indiferentes e insensíveis às consequências de seus questionáveis atos optam pelo caminho insalubre das noites insones, sem ao menos mensurar o prejuízo da depreciação diária do carro zero quilômetro recém adquirido em financiamento a perder de vista. Aqueles que priorizam as futilidades transitórias e perdem a tranquilidade de uma vida razoavelmente estabilizada, tentando manter as aparências de um status inexistente. A manada segue o caminho conhecido, porque essa massa acéfala e manietada não vislumbra argumentos factíveis contra a força da modernidade tecnológica. O convencimento deve necessariamente passar pelo padecimento, uma maneira efetiva de redirecionar comportamentos. É o purgatório terreno, onde as intimações e as cobranças judiciais se encarregam de amenizar o ímpeto perdulário de um povo aliciado por um simulacro de capitalismo. Não existe fórmula mágica para mudar os rumos dessa história. Os cabeças de vento precisam criar juízo. Seja pelo amor, seja pela dor.


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR

Imagem gerada por IA