Pacto com o erro


Só a cidade de Londrina descarta anualmente 211 milhões de sacolinhas plásticas. São 1.058 toneladas de plástico despejadas no meio ambiente sem nenhum tratamento
A gestão municipal de Londrina virou palco para mais um espetáculo de contorcionismo administrativo, sob o silêncio cúmplice da Câmara de Vereadores. O Consemma (Conselho Municipal do Meio Ambiente) acionou o Ministério Público após constatar que mais de R$ 15 milhões do fundo ambiental foram remanejados para pagar despesas recorrentes de outras secretarias. Na contramão do bom senso, o prefeito Tiago Amaral declarou que o ato é legal e respaldado na Constituição, justificando que o fundo é superavitário.
Diante da denúncia, da defesa e da omissão do Legislativo, surge uma provocação inevitável: como o município pode considerar esse fundo “superavitário” se o Lago Igapó, principal cartão-postal da cidade, agoniza em estado de decomposição há mais de um ano?
O londrinense precisa atentar-se à manobra fiscal: o superávit atual de R$ 25 milhões não é sinal de eficiência, mas de pura negligência. Se o fundo estivesse de fato investindo na resolução dos graves problemas ecológicos da cidade, estaria profundamente deficitário. Essa falta de compromisso ficou clara na revisão do Plano Diretor. As atualizações propostas não contemplam as necessidades básicas da nossa sociedade. O documento entrega um amontoado de diretrizes genéricas, sem metas para o consumo consciente, reciclagem em larga escala ou transição energética através do reaproveitamento de rejeitos sólidos.
Estamos vendados e nem percebemos que estamos sendo guiados por cegos.
Não é sustentabilidade, é sobrevivência! Só a cidade de Londrina descarta anualmente 211 milhões de sacolinhas plásticas. São 1.058 toneladas de plástico despejadas no meio ambiente sem nenhum tratamento.
Não é apenas reciclagem, é industrialização com alto retorno financeiro. Estima-se que 37% do lixo recolhido na cidade seja composto por itens recicláveis que não foram separados. Essa falta de gestão custa cerca de R$ 700 mil por mês aos cofres do município.
Não é conscientizar, é educar. Campanhas sazonais não bastam. Programas educacionais permanentes em nossa rede municipal de ensino são ferramentas capazes de transformar gerações inteiras.
Não é rejeito, é energia elétrica. Usinas de valorização energética — além de mitigarem a poluição — podem transformar os resíduos que hoje contaminam o nosso solo e o lençol freático em eletricidade para abastecer as nossas próprias escolas.
Não é ser ativista, é ser cidadão. É cobrar que os impostos pagos por todos nós gerem o maior retorno social e ambiental possível.
Hoje, o que temos é lixo acumulado e dinheiro desregrado. Mas amanhã, pode ser um ecossistema inteligente e retroalimentado pelo seu estilo de vida, seja ele qual for.
Desviar recursos da nossa saúde ecológica enquanto a cidade sufoca não é eficiência de gestão. Não é superávit. É um vergonhoso pacto com o erro!
(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão
Foto: Vivian Honorato/NCom/ Arquivo
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