El Niño: especialistas esperam chuvas até 80% acima da média

Após três horas de debate, os participantes de debate sobre preparação do Paraná pra o El Niño formalizaram alguns encaminhamentos que serão dirigidos aos órgãos competentes
A Assembleia Legislativa do Paraná realizou ontem a reunião de trabalho “El Niño no Paraná: prevenção, cenários e desafios”, que reuniu órgãos técnicos estaduais, prefeituras, universidades e representantes do setor produtivo para avaliar o grau de preparo do Estado diante do fenômeno climático já em curso, cujos efeitos são esperados para o segundo semestre deste ano. O encontro foi promovido de forma conjunta pelo deputado estadual Evandro Araújo (PSD), vice-presidente da Comissão de Ecologia, Meio Ambiente e Proteção aos Animais, e pelo presidente da Alep, Alexandre Curi (Republicanos).
Ao final de três horas de debate, os participantes formalizaram alguns encaminhamentos que serão dirigidos aos órgãos competentes. O primeiro é a estruturação de uma comunicação oficial que ofereça informação clara e confiável, de modo que cada paranaense saiba como se preparar, preocupação reforçada pelos técnicos diante da circulação de boatos e previsões catastróficas. O segundo é o fortalecimento dos fundos estaduais já existentes, acompanhado do estudo para a criação de um Fundo Estadual de Mudanças Climáticas, que daria lastro financeiro permanente às ações de prevenção.
O terceiro atende diretamente ao campo: o reconhecimento dos laudos do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) como atestado de dano e calamidade, medida que agilizaria o acesso a crédito e apoio pelos produtores rurais, sobretudo os pequenos, que hoje enfrentam entraves burocráticos para comprovar prejuízos após eventos extremos. Por fim, os participantes defenderam a criação dos Planos Municipais de Mudanças Climáticas no Paraná, instrumento que transformaria a atuação do Estado em planejamento permanente e não apenas em resposta emergencial a cada desastre.
Para o deputado estadual Evandro Araújo, o objetivo do encontro foi, antes de tudo, medir o que já existe. “O primeiro objetivo era averiguar o que já está preparado. Já tem dois ou três meses que a Defesa Civil e os órgãos do Estado vêm se preparando, então era preciso verificar isso”, explicou. “E, claro, chamar a atenção dos municípios e das gestões municipais, porque nós teremos que ter planos de contingência”.
“Um El Niño é sempre diferente do outro, e nós podemos ter surpresas. É preciso deixar claro que os eventos extremos, como os decorrentes do El Niño, têm origem global e não temos como evitar muitos eventos. No entanto, nós podemos sim diminuir danos e impactos antecipando situações”, explicou.
Para o parlamentar, a preparação se traduz em perguntas concretas que os municípios precisam responder antes que o evento chegue. “Numa possível confirmação desses eventos, o que o município vai fazer? Qual é o plano de contingência? Para onde as pessoas serão levadas, como serão socorridas? Que intervenções podemos fazer de imediato para proteger melhor as vidas?”, questionou.
Fenômeno já decretado – O encontro ocorre num momento em que o El Niño deixou de ser projeção. Segundo o coordenador de Operações do Simepar, Marco Antonio Rodrigues Jusevicius, o início do fenômeno foi decretado oficialmente em 11 de junho e deve perdurar ao menos até o verão do próximo ano. “O ápice dele é esperado para a primavera, que é o período em que os principais impactos devem ocorrer”, afirmou, ressaltando que o monitoramento é contínuo e que qualquer situação meteorológica adversa é repassada imediatamente à Defesa Civil.
A projeção é de chuvas entre 60% e 80% acima da média esperada, conforme o coordenador executivo da Defesa Civil Estadual, coronel Ivan Ricardo Fernandes. “Trabalhamos com atividades de prevenção e planejamento, principalmente em função da possibilidade de ocorrência de inundações e alagamentos em alguns municípios e regiões”, explicou, acrescentando que o Estado se prepara há meses para o cenário.
Durante a reunião, o Simepar apontou alerta especial para as regiões Sudoeste e Noroeste do Paraná. O presidente do órgão, Paulo de Tarso de Lara Pires, destacou o esforço de ampliação da estrutura de monitoramento, com a aquisição de seis novos radares meteorológicos, e fez um apelo à população para que busque fontes oficiais. “Sabemos que será um evento forte, com aumento das chuvas e probabilidade de inundações, mas nada que precise ser desesperador ou apavorante”, disse.
Uma década de prejuízos – Os números de um estudo feito pelo Ministério Público de Contas do Paraná (MPC-PR) ajudam a dimensionar o que está em jogo. Na última década, o Paraná registrou cerca de 6 mil desastres naturais, que atingiram praticamente todos os 399 municípios, afetaram mais de 4,5 milhões de pessoas e geraram cerca de R$ 32 bilhões em prejuízos. Somente na última primavera, as ocorrências mais que dobraram em relação ao ano anterior, com forte crescimento de vendavais e granizo, além do registro de tornados no interior do Estado, tudo isso em um período sem a influência do El Niño.
Participaram também do encontro o secretário de Agricultura e Abastecimento, Natalino Avance de Souza; a auditora de Controle Externo do TCE-PR, Alcione Aparecida Savariani Bertol; o diretor de Políticas Ambientais da Sedest, Rafael Andreguetto; o coordenador do NapiPI em Emergência Climática da UFPR, Francisco Mendonça; e a coordenadora adjunta do Conselho Acadêmico do Curso de Geografia da UEM, Marta Luiza de Souza, além de representantes de prefeituras e de entidades públicas e privadas. (Assessoria/Alep)
Foto: Divulgação
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