A falácia do etanol na gasolina

Embora importante, o incremento do setor de combustíveis renováveis, notadamente menos poluentes que os de origem fóssil, há que se destacar as peculiaridades desse modal energético e suas consequências para o consumidor final

Atualmente, a tecnologia flex está presente em quase 80% da frota de veículos leves circulantes no Brasil. Os dados são uma prova da forte dominância dos modelos bicombustíveis, superando com folga os 11,5% de veículos movidos exclusivamente a gasolina e pouco mais de 11% dos que utilizam o diesel. Essa hegemonia na opção pelo etanol hidratado é sustentada pelas usinas de moagem de cana, cuja produção de volumes significativos garante a oferta ininterrupta do produto. É evidente, portanto, a importância da implementação e manutenção de políticas públicas objetivando o incremento do setor de combustíveis renováveis, notadamente menos poluentes que os de origem fóssil, porém há que se destacar as peculiaridades desse modal energético e suas consequências para o consumidor final.

O governo federal, através do Ministério das Minas e Energia (MME) e do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) elevou o percentual obrigatório de etanol anidro misturado à gasolina comercializada no País de 30% para 32% (E32). A justificativa se baseia principalmente pela necessidade de garantir a segurança energética e reduzir a dependência de combustíveis fósseis. A nota governamental ressalta ainda que a medida busca a proteção contra crises internacionais, a redução de importações, a sustentabilidade e a redução da poluição, o estímulo ao setor sucroenergético e um alívio nos preços. Com validade de 180 dias, poderá ser eventualmente prorrogada no futuro. Tudo muito bonito no papel, porém a realidade nem sempre legitima os discursos oficiais.

Acontece que os veículos estão apresentando problemas mecânicos relacionados à má qualidade da gasolina misturada com etanol. Bomba de combustível, filtro, bico injetor e velas são os elementos mais atingidos, gerando oxidação e desgastes excessivos, não somente em veículos mais antigos. Sensores presentes nos veículos mais modernos entram em pane, sem conseguir interpretar e sanar satisfatoriamente algum imprevisto eletrônico. A luz de advertência no painel se acende, ocorre perda de potência, falhas no funcionamento do motor e como consequência imediata ocorre o aumento no consumo. Sintomas semelhantes são relatados também nos motores que utilizam o biodiesel.

Não obstante o índice de mistura anterior já ser considerado excessivo, agora absolutamente todos os brasileiros que dependam de um veículo movido com esse combustível serão agraciados com mais um presente de grego. Aliás, esse é o tipo de coação coletiva preferida pelos que comandam essa nação, uma vez que o consumidor não tem onde se apegar. Nem adianta procurar em postos com bandeiras conhecidas, outrora referências em qualidade do combustível, porque a “mijolina” estará presente em qualquer ponto de abastecimento, sem exceções.

Resta-nos requisitar o exercício pleno da propalada democracia. Palavra pomposa, garbosa, impregnada por uma redundância insuperável. Termo muito empregado em nações consideradas emergentes. O povo brasileiro a utiliza sem comedimento, quase despretensiosamente. Mas onde estaria mesmo a democracia, se sequer temos a opção para decidir pela qualidade do combustível a ser consumido? Ai vem a fatídica, mas inegável constatação: estamos sim, resignados com essa situação. Talvez até intimidados pela autocracia do sistema vigente. A picanha e a cervejinha ficaram na promessa. O mais triste dessa história é que ainda tem gente acreditando em Papai Noel.  “Santa ingenuidade, Batman!”


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR

Foto: Arquivo/EBC