Não somos feitos de açúcar

Tudo indica que caminhamos para épocas de dificuldades extremas

Antigamente, quando alguém mostrava medo em caminhar na chuva era logo caçoado com a frase “vai logo, você não é feito de açúcar”. Hoje em dia já não se pode mais utilizar desse expediente para apontar a cisma instintiva das pessoas. As mudanças climáticas já são sentidas em todo o planeta e a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), agência científica e regulatória do governo norte-americano concluiu recentemente que o fenômeno climático El Niño está atuante e provavelmente será o mais intenso da história. Por conta dessa constatação científica, os órgãos e empresas especializadas em climatologia emitiram alertas de eventos climáticos severos, aumentando o temor coletivo em relação à preservação da integridade física e do patrimônio.

Ainda que o ceticismo persista em relação às efetivas mudanças climáticas, as evidências não deixam dúvidas de que o planeta está mesmo destemperado e aquecendo gradualmente. O degelo acentuado da calota polar, inundações, incêndios florestais, estiagem prolongada, ocorrências de granizo, tornados e vendavais com potencial destruidor se tornaram cada vez mais frequentes. E pior ainda, as eventualidades se manifestaram em locais jamais imaginados. O aquecimento das águas do Oceano Pacífico poderá afetar de forma incontestável todas as regiões do planeta, alterando significativamente o regime de chuvas com consequências catastróficas para o meio ambiente e todos os seres que nele habitam.

Especificamente em nosso País, os sinais de degradação ambiental estão cada vez mais visíveis. Há menos de cinquenta anos a pesca era profusa e diversificada em córregos e riachos localizados no entorno das aglomerações urbanas. De suas nascentes vertiam água pura, cristalina, uma riqueza imensurável que foi subestimada e irresponsavelmente deteriorada ao longo de décadas de omissão e descaso. O cenário atual dos cursos d’água é desalentador. Aqueles que ainda não foram assoreados por práticas equivocadas no uso da terra, seja pela agricultura ou pecuária estão criminosamente emporcalhados por toneladas de resíduos variados. Pneus, móveis, material plástico, lixo doméstico e esgoto sanitário flutuam ao lado dos últimos e persistentes sobreviventes da insana indiferença humana.

Apesar de tudo, continuamos a pressionar constantemente as reservas naturais alterando permanentemente o equilíbrio dos ecossistemas, que tendem a não suportar tamanho descaso. A emissão de poluentes atmosféricos persiste, sem que sejam implementadas iniciativas consistentes voltadas a minimizar os danos, considerados por alguns estudiosos como teoricamente irreversíveis. Diante desse quadro que se desenha para o futuro de nosso planeta, seria interessante incorporar em nosso cotidiano alguns comportamentos direcionados à proteção e prevenção a desastres, como acontece em países acometidos por abalos sísmicos recorrentes. A verdade é que estamos muito distantes da conscientização necessária para fazer frente às intempéries sazonais. É necessário incutir medidas preventivas ainda na infância e no ambiente escolar, para que essa tendência se desenvolva na vida adulta.

Tudo indica que caminhamos para épocas de dificuldades extremas. Com as danosas consequências provocadas pelos diversos conflitos bélicos em andamento, os desmandos perpetrados por mandatários mundo afora e a intensidade do fenômeno climático natural, os efeitos da fome e da miséria serão exponencialmente amplificados. Não somos feitos de açúcar, mas a situação atual exige atenção, cautela, informação atualizada e muita resiliência. Infelizmente, esse é o “novo normal”.


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR

Imagem gerada por IA