Livros para as férias
Os jornalistas sempre insistiram para que José Saramago (escritor português premiado) recomendasse alguns livros para serem lidos nas férias. Ele se esquivava, pois considerava a leitura atividade que deveria nos ocupar durante todo o ano. Um dia, perante a insistência de um jornalista teimoso, resolveu responder, definindo o que chamou de “família de espírito” sugeriu: Camões, porque todos os caminhos portugueses a ele vão dar; Padre Antonio Vieira, porque a língua portuguesa nunca foi mais bela que quando a escreveu esse jesuíta; Cervantes, porque sem o autor do Quixote a Península Ibérica seria uma casa sem telhado; Montaigne, porque não precisou de Freud para saber quem era; Voltaire, porque perdeu as ilusões sobre a humanidade e sobreviveu ao desgosto; Raul Brandão, porque não é necessário ser um gênio para escrever um livro genial; Fernando Pessoa, porque a porta pela qual se chega a ele é a porta por onde se chega a Portugal; Kafka, porque demonstrou que o homem é um coleóptero; Eça de Queiroz, porque ensinou a ironia aos portugueses; Jorge Luis Borges, porque inventou a literatura virtual, e, finalmente, Gogol, porque contemplou a vida humana e achou-a triste. Mas, para Saramago os leitores deveriam organizar a sua própria lista, definindo a sua “família de espírito” literária. Boa ocupação para uma tarde na praia, no campo ou em casa, se o dinheiro não deu para férias este ano.
Ivana Veraldo
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