Vítimas do próprio veneno
De José Luiz Boromelo:
A população norte-americana viveu mais uma vez, dias de grande consternação. Até o presidente da maior potência econômica do planeta veio a público solidarizar-se com os familiares das vítimas. O fato se repete com uma frequência assustadora, mostrando que a manutenção dos direitos individuais do cidadão (garantidos pela Constituição daquela nação) muitas vezes extrapola os limites do aceitável. Pessoas inocentes foram cruelmente assassinadas por um maníaco numa instituição pública de ensino fundamental. Casos de violência dessas proporções não são novidade num país onde a comercialização legalizada de armas de guerra acontece livremente. Fuzis e rifles automáticos de longo alcance e altíssima precisão, espingardas de repetição de grosso calibre, pistolas e um arsenal diversificado estão à disposição de quem se interessar. Esse comportamento belicoso é estimulado constantemente por filmes de ação dos grandes estúdios de Hollywood. As cenas de extrema violência parecem elevar o orgulho de uma nação, numa exaltação explícita aos sentimentos de soberania e dominação, típicos do nacionalismo americano.
O resultado da exposição de gerações por décadas à violência gratuita não poderia ser outro. O país possui mais de 300 milhões de armas de fogo de diversos calibres. A facilidade na aquisição de armas agrava ainda mais a situação e as iniciativas para a restrição e até proibição das vendas esbarra na pressão exercida pelos fabricantes. Em recente debate sobre o polêmico tema, dois participantes trocaram insultos acirrados ao vivo pela TV. O antagonismo de opiniões divide o país, que historicamente considera o direito à posse e uso de armas de fogo uma forma eficaz de defesa pessoal e do patrimônio. Não por coincidência a Guerra da Secessão, um dos maiores conflitos armados nos Estados Unidos deixou um rastro de sangue e destruição pelo país. A intransigência entre os “yankees do Norte” e os “confederados do Sul” custou a vida de aproximadamente 600 mil americanos. Mas os tempos são outros. As ideias separatistas de outrora deram lugar ao progresso em forma de desenvolvimento e riqueza. Novas tecnologias são criadas diariamente, com o intuito de facilitar a vida do cidadão. Apesar dos evidentes avanços da modernidade, a obsessão desse povo pelo armamento letal é proporcional à sua exposição diária a novos casos de massacres coletivos. Alguns segmentos da sociedade americana se mobilizam e já se observa em alguns estados a entrega espontânea de armas em troca de bônus com valores variados.
No Brasil, a comercialização e a expedição de registro e porte de armas de fogo seguem um rígido controle pelo Sistema Nacional de Armas (Sinarm) instituído pelo Ministério da Justiça, no âmbito da Polícia Federal. Preenchidos todos os requisitos exigidos pela legislação específica, o cidadão tem o direito de manter sua arma no escritório, na residência ou em outros locais, e até mesmo conduzi-la junto ao corpo, devidamente acondicionada. Essa falsa sensação de segurança que a arma oferece acaba provocando inúmeras tragédias. A percepção empírica do perigo é subjetiva, pois o crime acontece quando menos se espera. Sua eficácia é seriamente prejudicada quando o fator surpresa se faz presente. Por conta de atitudes equivocadas, quem leva consigo uma arma de fogo está muito mais sujeito a perder sua vida ou provocar tragédias evitáveis, quando vítima da ações de marginais. Proteger o patrimônio não é absolutamente uma justificativa plausível para se portar uma arma, visto que a vida tem valor inestimável.
As tragédias infelizmente acontecem. E as vítimas são sempre os inocentes da história. Já passou da hora de se mudar os números dessa triste estatística. O caminho passa inevitavelmente, lá e cá, pelo desarmamento.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.
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