A educação vem de berço?

De José Luiz Boromelo:
O trânsito seguia lentamente quando o motivo do transtorno urbano naquela movimentada via pública foi conhecido: dois veículos de luxo parados em fila dupla com seus jovens condutores conversando tranquilamente, como se estivessem no sofá de casa. Ambos devidamente acompanhados por latas de bebida que eram atiradas pela janela sem constrangimento algum, transformando o canteiro central em lixeira particular e o congestionamento cada vez mais insuportável pela ocupação irregular da faixa de rolamento. A ousadia dos folgados era evidente e por diversas vezes, em resposta às buzinadas dos mais exaltados, estendiam a mão com o dedo médio em riste num típico ato de provocação e desprezo. Após algum tempo de confusão na via, os dois veículos partiram em alta velocidade deixando para trás uma porção de motoristas indignados com esse comportamento e no gramado os vestígios de tamanha ignorância.


Em outro local da cidade o descaso com o meio ambiente mostrou-se escancarado, no momento em que um veículo utilitário era descarregado ao lado da via pública. Entre o lixo ali depositado havia sofá, colchão, entulho de construção, lâmpadas fluorescentes, madeira, garrafas plásticas e lixo doméstico, entre outros. A tranqüilidade e a indiferença do inconseqüente contrastavam com uma placa afixada nas proximidades, que justamente anunciava a proibição da combatida e ecologicamente incorreta prática naquele local. Nem os veículos que passavam naquele momento e os protestos veementes de alguns transeuntes fizeram o homem desistir de seu intento. Concluída sua “missão” em livrar-se do incômodo a que se propôs nosso anti-herói da biodiversidade desapareceu rapidamente, não antes de acenar cinicamente para os indignados cidadãos que assistiram àquela aviltante cena.
Há pouco tempo a mídia televisiva apresentou uma matéria sobre a utilização de espaços públicos, entre eles a área verde no entorno da Catedral Metropolitana de Maringá. Famílias inteiras reúnem-se aos domingos e feriados para usufruir dos momentos de liberdade para as crianças e descontração para os adultos. Seria a junção ideal dos ingredientes de um belo cartão postal, senão por um relevante e perceptível detalhe: a montanha de lixo deixado pelos usuários daquele logradouro. Por todos os cantos viam-se restos de alimentos e de frutas, copos, garrafas, sacolas plásticas e muito mais. Indagada sobre a situação, uma entrevistada tentou justificar o ato sem acanhamento algum, com a desculpa que o motivo para aquela atitude insensata era a falta de lixeiras suficientes para receber os detritos produzidos. Faltou-lhe naquele momento, a humildade para reconhecer sua pouca ou nenhuma preocupação com a preservação do meio ambiente, deixando de acondicionar o lixo e destiná-lo corretamente.
Esses e outros tantos exemplos são observados diariamente por todo o país. Algumas praias do Nordeste brasileiro estão totalmente poluídas por lixo de todo tipo. As metrópoles sofrem com as enchentes, resultado direto do acúmulo de material não degradável em bueiros e galerias de águas pluviais. As periferias de grandes cidades e as vias vicinais transformaram-se em depósitos de lixo a céu aberto, condição ideal para a proliferação dos vetores de transmissão de inúmeras moléstias. Estamos muito distante daquilo que poderia ser considerado como aceitável em termos de consciência ecológica e ainda de formação do caráter de nossa gente. O que leva o cidadão a apresentar determinados comportamentos, sabedor das conseqüências de seu ato irresponsável? Quais as efetivas medidas das autoridades constituídas para identificar e punir com eficiência aqueles que afrontam a legislação ambiental vigente? Onde estão o respeito e o acatamento aos valores morais recebidos no seio familiar, os mesmos que deveriam diuturnamente nortear as atitudes sensatas de nossa gente? Por acaso perderam-se no tempo com o advento da tecnologia e do imediatismo consumista, sendo relegados a simples lembranças de um passado distante?
Cabe a cada um a resposta adequada para os mais diversos questionamentos. De preferência, que venha em forma de atitudes firmes e previdentes, contribuindo para a manutenção da qualidade de vida no planeta. E de quebra, tentar provar com uma mudança consciente de paradigmas que a boa educação e o respeito, realmente, vêm de berço.
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José Luiz Boromelo
[email protected]

Angelo Rigon

Jornalista em Maringá. Começou em jornal aos 14 anos, foi editor-chefe dos três jornais diários de Maringá. Pioneiro em blog político, repórter e apresentador de programa de televisão, apresentador de programa político nas rádios Jornal, Difusora e Banda 1, comentarista das rádios Metropolitana e Guairacá, editor de diversos jornais e revistas, como Umuarama Ilustrado, Correio da Cidade, Expresso Paraná, Maringá M9 e Página 9. Atualmente integra o cast da Jovem Pan Maringá.

6 pitacos em “A educação vem de berço?

  1. Se dependesse só de mim e dos meus três filhos, os bueiros não receberiam nem mesmo papel de bala… porém, infelizmente, a maioria age de forma diferente… mas, o prejuízo cai na conta de todos.

  2. MMeu comentario è serio: na av Tiradentes na noite de sexa feira de carnaval, estava uma baderna que nunca vi em Maringa! motoqueiros de motos pequenas, rodando sem para por uma quadra so fazendo uma arruaca sem tamanho, na esquina da Parana com a Tiradentes, alem de muita bebida, as centenas de motos faziam ali uma especie de arrancadao com garupas e empinando motos! Isto sem contar que eram 2:40 da madrugada! gente deve recorrer???? a policia??? como evitar tudo isto????

  3. Há dias atrás, no semáforo entre a Colombo e a 19 de dezembro, uma duplada parou ao lado do meu carro. Um menino de uns 9 anos imagino, abriu o vidro traseiro e se preparava para jogar as embalagens de um lanche quando me viu olhando para ele. Só fiz um gesto com os braços, tipo: Você não vai fazer isso aquii? Ele se recolheu entre risonho e envergonhado, fechou o vidro, nisso o sinal abriu. Será que ele jogou o lixo mais adiante?
    Creio que campanhas na TV – em horário nobre, não na madrugada – ajudaria a minimizar a falta de educação de uma geração que nem um simples copo conseguem levar para a cozinha, deixando-o na sala onde assistem TV. As concessões públicas são, especialmente para isso. É só ridicularizar e mostrar algumas figuras na TV ou em espetáculos que a coisa melhora.

  4. Caro José Luiz, compartilho a sua indignação. Sempre passo ao redor da catedral no domingo à noite e não há uma ocasião em que não pense que uma manada de porcos esteve ali. Triste é constatar que esse tipo de atitude evidencia problemas ainda maiores, que perpassam todas as esferas da nossa cultura. A falta de educação, tanto quanto a desonestidade, entre outras características, são problemas culturais que não se resolverão facilmente, sobretudo porque pioram a cada geração.

  5. E o que mais podemos esperar de uma sociedade que ensina aos filhos o valor da falta de educação (disfarçada de senso de humor), da brutalidade (disfarçada de auto-afirmação), e do abuso dos direitos civis (disfarçado de liberdade de expressão), que somados à carência de valores gerais já contaminou a geração do milênio (nascidos após 1982) com esse cancro moral que eles já começam a transmitir aos filhos, que logo serão adolescentes, perpetuando o ciclo. Quando eu venho aqui e falo de vileiros sem caráter, que andam de CG e pensam que são motociclistas, ainda sou acusado de elitismo e coisas assim. Mas, o que mais se pode pensar dessa nova classe média, a classe C? Depois que perceberam que estão aparecendo na mídia, fazem questão de exercer seu direito de sujar, quebrar, vandalizar, igual a qualquer filhote da elite costumava (e ainda costuma) fazer, impunemente! É a falta de educação generalizada se manifestando sempre de formas mais medíocres e destrutivas.
    Quando um moleque desses morre, se espatifando num muro ou traseira de caminhão, considero um desperdício de recursos públicos o SIATE ir atender a ocorrência, deveriam é chamar logo a limpeza pública pra remover aquele esterco do asfalto.
    Essa já foi uma cidade excelente de se viver, a vila ficava na vila, e tudo era tranquilo. Foi distribuir renda pra ignorantes, que a coisa toda foi pra merda.

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