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Trágica e medonha, a morte chega sorrateira e rouba-nos, nus, da mortalha viva

De José Fiori:
Morrer vivo é uma coisa, morrer morto é outra. Trágica, terrível, escabrosa, medonha, triste…, a morte chega rapidinho e sorrateira e sequestra nossos amigos. Às vezes retarda o seu périplo de chegada para, nus, arrancar-nos da mortalha viva. Roubam nossa prometéica essência divina. Então morremos já mortos, ou morremos todos os dias vivos, o que dói muito, sentir-se pré-defunto funerariamente morto, entregando o corpo para o coveiro. Digo isso por quê? Tenho visto alguns pré-mortos em fase terminal, observando os moradores de rua a óbito, mendigos e alcoolistas em risco, não raro doentes ou feridos, esfolados, pés inchados, discriminados pelos vivos, oprimidos, fedidos. Vejo neles a imagem da medonha. Estão esperando a morte chegar. Às vezes, ela tarda com sua foice, mas nunca falta. Se volto a vê-los, daí creio no milagre de estarem vivos. Até creio em ressurreição. Vivem assim tão perto do fim ao desabrigo. Sobrevivem à esmola. Resistem ao intenso calor, ao rigoroso frio, às chuvas e trovoadas. Um tempo. Mas não durante todo o tempo. Não comem, só bebem… a pinga marca barbante em garrafa plástica, a pior de todas, Leãozinho, Quatro Campos, às vezes quando mangueiam mais, ganham uma dose de boa idéia, 51, talagam São Francisco e Pitu.

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