Do professor Reginaldo Dias:
Maringá conviveu com a chamada zona do baixo meretrício (ZBM) até meados da década de 1970, quando já contavam mais de 25 anos de fundação, e o período pioneiro convertia-se em monumento da memória. A “zona” – maneira econômica que o povo adotou para se referir ao termo – então se localizava na Vila Marumby, logo após o limite sul do desenho original do plano de urbanização de Maringá, cuja fronteira, para usar uma referência atual, era a linha que hoje constitui a Avenida JK.
As zonas de prostituição costumam fazer parte da paisagem das áreas de expansão de fronteira, convertendo-se tanto em palco dos lazeres de licitude controversa quanto dos negócios que se proliferam. Até certo momento do processo de urbanização, são vistas com um pouco de romantismo e como problema a ser oportunamente erradicado.
À medida que a urbanização se expande, sua presença colide com os padrões morais da comunidade em formação e com interesses comerciais de valorização imobiliária da região em que se localiza. Por isso, antes de sua extinção oficial, também costumam ser empurradas para áreas periféricas. Foi o que aconteceu em Maringá.
Em seu livro “Terra Crua”, o primeiro escrito sobre Maringá, Jorge Ferreira Duque Estrada comenta (páginas 15 e 16) a presença da prostituição na fase inicial da cidade, referindo-se à prosperidade da “coréia”, a zona de meretrício localizada nos fundos da Delegacia de
Polícia, e a outras denominações do período.
Em sua narrativa, em que pretende imprimir um tom realista, considera necessário dedicar algumas linhas “àquele mundo de ilusões” que se “engalanava de ‘mariposas’ atraídas pela fama e pelo dinheiro do café”.
A zona da Vila Marumby, erradicada na década de 70, não era, pois, a primeira incidência em nosso território. Representava que a área anterior, localizada nas imediações da Avenida Guaíra, havia sido incorporada pela dinâmica da ocupação urbana.
Mesmo reocupada por outras atividades, essa região anterior restou conhecida, por certo tempo, com o estigma de ter sediado a “zona véia”.
A documentação demonstra que, mesmo no debate da década de 1970, cogitou-se a transferência para uma região mais distante, na PR-13, saída para Campo Mourão. De resto, a extinção da ZBM não significou o fim da atividade, que seguiu exercida em estabelecimentos espalhados pela cidade e oferecida abertamente em vias públicas. Isso fez com que, vez ou outra, alguém propusesse o debate, sem muita repercussão, se não era preferível uma área para confinar as “casas de tolerância”.
Reginaldo Dias, professor de história na UEM (Universidade Estadual de Maringá)