Escolha errada?
De José Luiz Boromelo:
Mr. Blatter fique tranqüilo porque não haverá manifestações nem tumultos na Copa do Mundo de 2014. A escolha foi certa, certíssima, aliás, não poderia ter sido melhor. Da forma como colocou as coisas, nós brasileiros estamos achando que o senhor foi um tanto indelicado. Ou seria algum tipo de discriminação com o país do futebol e do carnaval? Seus temores não procedem definitivamente, senão vejamos:
1) Temos os mais modernos e bem equipados aeroportos do mundo, e nunca sofremos com qualquer “apagão aéreo”, como muitos países em desenvolvimento por aí;
2) Os visitantes não terão problema algum com deslocamentos pois nossa malha viária é de altíssima qualidade com ruas, avenidas e rodovias largas e bem sinalizadas e os motoristas, ciclistas e pedestres são totalmente conscientes de suas responsabilidades no trânsito, um perfeito exemplo de civilidade, diga-se de passagem. E se ouvir algo sobre as extorsivas tarifas dos pedágios brasileiros esqueça, porque é tudo intriga da oposição;
3) Nossa infra-estrutura de transportes é espetacular e os torcedores, repórteres e turistas terão o privilégio de utilizar nossas linhas de ônibus exclusivas com todo o conforto possível, assim como o metrô e os trens urbanos que são o orgulho da nação brasileira nos quesitos conservação, higiene e pontualidade e jamais se viu algum tipo de paralisação nessa área tão relevante;
4) A rede de telecomunicações em operação no país é fantástica, à altura dos trilhões de dólares em investimentos despejados pelas operadoras, e o mais importante, o usuário é tratado com o maior respeito, um reflexo das raríssimas queixas contra esse tipo de serviço;
5) Os estádios especialmente construídos para o evento que se aproxima (organizado pela entidade a qual dirige) são quase do mesmo nível dos nossos hospitais, creches, escolas, postos de saúde e todos os demais serviços públicos oferecidos ao cidadão. Os gastos com o estádio do Maracanã são fichinha perto daquele hospital de referência implantado na comunidade carente. Isso é que é um belo exemplo de cidadania, não é mesmo, Sr. Blatter?
6) Para reafirmar nosso compromisso de que somos mesmo gente de palavra, mudamos até a legislação e permitiremos a comercialização de bebidas alcoólicas no interior dos estádios. Vale lembrar ainda que os preços dos ingressos serão quase irrisórios, uma maneira politicamente correta de inclusão social, obviamente endossada pelos nossos políticos de conduta totalmente ilibada, firme, reta, um verdadeiro exemplo para o resto do mundo de probidade administrativa (coisa rara de se encontrar em pessoas que se propõem a cuidar dos nossos? interesses);
7) Com relação a sua infundada preocupação sobre as manifestações, podemos adiantar-lhe que não haverá disparos de balas de borracha, muito menos o emprego de bombas de efeito moral, de gás pimenta ou lacrimogêneo, pois foram todas utilizadas no mês passado e não se mostraram eficazes o suficiente;
8) Finalmente, se porventura acontecer algum imprevisto similar ao que sugeriu, que fique bem claro que a responsabilidade será única e exclusiva do povo brasileiro (que sempre arca com as inconseqüências de seus representantes incompetentes). Vale ressaltar ainda que teve a oportunidade (infelicidade) de constatar “in loco” na abertura da Copa das Confederações que somos detentores de uma educação esmerada, irretocável, típica das elites de países de primeiríssimo mundo;
9) Não obstante todas essas didáticas e tranqüilizadoras explanações, sugerimos que envie novamente e desta feita com recomendações bem mais específicas o seu escudeiro-mor Jérôme “pé-no-traseiro” Walk (mas que ele agora cumpra realmente com sua ameaça), pois é de bom alvitre que se tome as providências necessárias (há tempo?). Porque pelo andar da carruagem as coisas podem não acontecer da forma como Sua Excelência imagina, espera ou deseja. Então, até 2014, Mr. Blatter.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.
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