A escravidão da toga


Palavras de desembargadora não deixam dúvidas de que o sentimento maior é privilegiar o corporativismo ao invés de atender resolutamente as demandas judiciais da sociedade
Uma desembargadora que atua há 45 anos na carreira jurídica do Pará resolveu expor publicamente sua insatisfação, após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) estabelecer critérios para o pagamento de verbas indenizatórias a magistrados e integrantes do Ministério Público, conhecidas como “penduricalhos”. Ela afirmou, entre outras assertivas, que a categoria tem sido mal vista pela sociedade, sendo tratados como “vilões” e gostaria que “uma parte da população viesse viver o dia a dia do juiz e do desembargador para verificar como é que a gente trabalha” e ainda, “daqui a pouco a gente vai estar no hall daqueles funcionários que trabalham em regime de escravidão”. Segundo dados do Portal da Transparência, a magistrada recebeu em março de 2026 o valor líquido que superou os 91 mil reais.
O inusitado e contraditório desabafo da insigne agente pública retrata sem disfarces a condição de supremacia outorgada a essa privilegiada casta. É interessante ressaltar a convicção com que defende suas falas, tentando colocar a classe a que pertence como vítimas do sistema com a esdrúxula justificativa “excesso de trabalho” e pela impositiva adequação aos ditames da Corte Suprema. O exagero contido em suas palavras ao afirmar que “colegas estão deixando de frequentar gabinetes médicos e outros estão deixando de tomar remédios” não deixam dúvidas de que o sentimento maior é privilegiar o corporativismo ao invés de atender resolutamente as demandas judiciais da sociedade, mesmo sendo pontualmente muito bem remunerada para isso.
É interessante ressaltar a percepção das pessoas sobre determinados fatos, dependendo de sua envergadura social. Para o leigo, o cidadão comum, o pagador de impostos, o assalariado, “regime de escravidão” se traduz em longas madrugadas, coletivos superlotados, filas intermináveis, planos de saúde com mensalidades extorsivas, preços elevados nos supermercados e postos de combustíveis, enfim, um extenso rol de dificuldades a que todos estamos sujeitos na vida. Isso alcança também os pequenos e médios empreendedores, que fazem malabarismos para auferir um lucro mínimo no fim do mês, mantendo empregos e fazendo girar a economia. Assim como o “regime de escravidão” a que são submetidos os pobres mortais que buscam seu sustento diariamente com trabalho informal debaixo de sol inclemente, frio intenso ou chuva, lá estão os incansáveis brasileiros a mostrar resiliência e persistência, acima de tudo. Sentimentos presentes naqueles chefes de família que almejam com seu trabalho honrado, propiciar conforto à sua prole em um lar digno, o acesso irrestrito a produtos e serviços essenciais e oportunidades profissionais, uma premissa básica da verdadeira democracia.
É possível identificar na singular manifestação da amargurada desembargadora sentimentos de completa insensibilidade para com o semelhante, no momento em que equipara sua privilegiadíssima condição salarial ao “regime de escravidão”. Seria interessante então sugerir à ilustre magistrada uma maneira simples, fácil e rápida de encerrar definitivamente sua angústia com a situação atual. Que solicite a aposentadoria. Que peça para sair. Que deixe essa laboriosa missão a cargo de profissionais com inconteste disposição em solucionar os pleitos da sociedade. E que leve consigo concepções estritamente pessoais, incompatíveis com a relevância do cargo que ora ocupa, reconhecidamente distantes das legítimas necessidades da sociedade. Simples assim.
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR.
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