Antigos carnavais agitavam Maringá e região

Tanto riso,
Oh! quanta alegria,
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão

(“Máscara negra”, Zé Kéti e Hildebrando Matos – 1967)

Osvaldo Reis

O carnaval não é mais o mesmo. Até por que não existem mais marchinhas como “Máscara Negra”, do saudoso Zé Kétti. Entre tantas outras, claro. É preciso recorrer ao passado para mostrar que houve bons carnavais em Maringá e região.
Em Maringá, até o fim da década de 1980, a folia tinha Rei Momo. Sebastião Carabina, que morreu em 1981, estreou o trono.

Sem substituto, Elói Victor de Mello, então presidente da Comissão Organizadora do Carnaval daquele ano, tratou de resolver o problema. Convocou a diretoria para uma reunião, que definiu: o novo Rei Momo seria o escritor Osvaldo Fernandes Reis.

Com aval do secretário Otávio Salvadori e do presidente Léo de Paula e Silva, ambos do Clube Olímpico, Mello comunicou a decisão a Reis, que ficou de responder no dia seguinte. Ele foi chamado para uma reunião na Prefeitura. Ao chegar lá, a Imprensa o aguardava para uma coletiva. “Não tive chance de decidir nada”, afirmou. “A escolha já estava feita”.

Definido pelos jornais como simpático e acessível, Reis foi Rei Momo entre 1981 e 1986. Com 140 quilos, ele tornou-se uma figura de prestígio na cidade. Durante o Carnaval, reinava no Olímpico, mas transitava pelo Maringá Clube, Country, Acema, Teuto-Brasileiro e Bailão Popular do Atlântico.

 

De posse das chaves – Em todos os clubes, Reis era recebido com euforia e respeito. “Me achava realmente um rei”, recorda-se. “Havia mesa preparada pra mim e muita gente aguardando para fotos e cumprimentos”. Apesar de pertencer ao Clube Olímpico, ele reinava para a cidade, inclusive de posse das chaves que recebera do então prefeito João Paulino Vieira Filho.

Natural de Bom Sucesso (Vale do Ivaí), Reis chegou a Maringá em 1953. Autodidata, é autor de dez livros. Após passar por uma cirurgia de redução de estômago parou de engordar.

Aos 64 anos, diz ter boas recordações do carnaval maringaense. “Era um tempo bom, que elevava o nome da cidade para todo o Paraná e até pelo Brasil”, afirma. “Infelizmente, tudo acabou”. Para ele, a culpa é da televisão, que levou a folia para dentro de casa. “A gente ia ao carnaval para festejar, mas as pessoas curte tudo na telinha, sem sair da poltrona”.

 

Os bons tempos da “Saranda-auê”

No início dos anos 80, um grupo de estudantes do Colégio Estadual Olavo Bilac, de Sarandi, se reunia para bater papo. Entre uma conversa e outra, cantarolavam letras de sambas. Bolsas eram improvisadas como pandeiros. Até que Maurílio Barbosa, hoje com 50 anos, sugeriu que fundassem um bloco de carnaval.

Os amigos toparam e escolheram o nome do bloco: “Saranda-auê”. O número de participantes cresceu e em 1986 transformou-se em escola de samba. Nascia a “Saranda-auê”, presidida por Maurílio Barbosa. Faltavam instrumentos. Eles procuraram o então prefeito de Sarandi, Hélio Gremes, que lhes cedeu espaço para instalação de uma barraca nas festas de aniversários da cidade.

Com o dinheiro arrecadado compraram parte dos instrumentos. Mais tarde o então deputado Antônio Bárbara e o prefeito da época, Júlio Bifon, doaram à escola os instrumentos que faltavam. Assim, a “Saranda-auê” transformou-se numa das maiores escolas de samba da região.

A escola fez memoráveis desfiles em Sarandi. Segundo Maurílio, em 1989, a “Saranda-auê” foi campeã do carnaval de rua de Maringá, mas a comissão organizadora não teria aceito o resultado. Em 1992, a “Saranda-auê” voltou a desfilar em Maringá e sagrou-se campeã novamente. Desta vez, o título foi validado.

Um dos incentivadores do carnaval de Sarandi era o empresário Walter Volpato, 59. No começo da década de 1980, ele era presidente do Sarandi Esporte Clube. “A gente organizava os desfiles, filmava e em seguida pedia para exibir na RTV, cuja geradora era em Sarandi”, conta. As pessoas pensavam que era ao vivo porque as cenas iam ao ar meia hora após o fim do evento.

Para Volpato, o poder público precisa incentivar o carnaval. “Se não como financiador, seja como incentivador, buscando patrocínio na iniciativa privada”, diz. “ Na época, a Prefeitura chegava a retirar até quebra-molas da Avenida Maringá para os carros alegóricos passarem pelo local”.

 

Em Jandaia, os desfiles do saudoso Pelé

Carnaval, foto 2

Não se pode falar do carnaval na região sem citar Jandaia do Sul. Unidos da Vila Rica, Unidos da Vila Santo Antonio e Afujan, patrocinada pela empresa Jamel, se encarregavam do desfile de rua na cidade. Milhares de pessoas iam à Avenida Getúlio Vargas para ver as escolas. A Unidos da Barra Funda de Apucarana e integrantes do Clube Recreativo de Mandaguari participavam dos desfiles, nas décadas de 1980 e 1990.

A coordenação era do carnavalesco Celso Germano de Oliveira, o Pelé, que morreu em 2013. As escolas acabaram, mas ele continuou a promover bailes de carnaval todos os anos no salão da Ampac em Jandaia do Sul.

Para ele, o carnaval de rua sucumbira-se pela falta de dinheiro e gente para organizar a festa. “Naquela época, eu era autônomo e tinha tempo de ficar à frente de tudo”, disse à Revista Tradição, em 2011. “Hoje (na época), sou empregado e não tenho a mesma disponibilidade”.

Pelé acrescentara que a falta de dinheiro era o maior entrave. “Não se põe uma escola com 400 componentes na avenida, como era a Unidos da Vila Santo Antônio, com menos de R$ 200 mil (em 2011)”, calculara. “Como não se tem de onde tirar esse dinheiro, não existe desfile”.

 

Mulheres com seios à mostra em Apucarana

Carnaval, foto 1

Em Apucarana, havia quatro escolas de samba: Unidos da Barra Funda, Salário Mínimo, Águias do Alvorecer e Garotos do Paraíso. Durante o carnaval, pelo menos duas vezes, saíam na avenida principal da cidade e atraíam milhares de pessoas.

A Unidos da Barra Funda, fundada em 1967, foi campeã do carnaval de rua de Apucarana por três anos seguidos: 1985, 1986 e 1987. Presidida pelo saudoso Paulo Henrique Venâncio, o Bavária, encantava a multidão com criativos sambas enredos e fantasias.

A alta inflação dos anos 80 servia de inspiração. “Vou sonhar/vou sonhar bem alto/ esquecendo nossa rica inflação, dizia o samba enredo da Salário Mínimo em 1988. Fundada em 1979, por muitos anos foi comandada pelo advogado Dirceu Borges Filho, o Dirceuzinho.

Fundada em 1986, no ano seguinte, a Águias do Alvorecer chocou os conservadores. Naquele ano, a escola levou à avenida duas mulheres com seios nus. O top-less causou frisson, mas ajudou a divulgar a escola.

Etelvino Francisco, o Chico Preto, comandava a Garotos do Paraíso, que fez sucesso em 1987, com o carro alegórico Princesa Isabel. Ele sempre viajava ao Rio de Janeiro em busca de sambistas para reforçar o elenco da escola.

 

Mandaguari, Marialva e Nova Esperança

Se em Jandaia e Apucarana, o carnaval brilhava na rua, em Mandaguari, era nos clubes. Na década de 50, a folia era no Clube do Aeroporto. Nos anos 60, os foliões se reuniam no Salão do Boliche, ao lado da Igreja Nossa Senhora Aparecida.

Nos anos seguintes, os blocos fizeram sucesso no Clube Recreativo. Eles se reuniam na Avenida Amazonas, de onde partiam para o clube ao som de tradicionais marchinhas.

O mesmo ocorria no Clube dos 30 em Marialva. A reunião de blocos atraía muita gente. Não era diferente no Clube Campestre de Nova Esperança, onde havia a tradicional “Bandinha do Clube”. Formada por antigos integrantes, todo carnaval eles se reuniam para a tradicional batucada.

Dona Florinda agitava a folia em Astorga

Carnaval, foto 5

Outro carnaval que deixou marca na região é o do Astorga Tênis Clube (ATC). A década de 1960 foi uma das mais efervescentes. A coordenação era da professora Florinda Gonçalves Lourenço. Dezenas de blocos animavam as noites de folia. Durante o ano, eles se cotizavam e compravam as roupas para confeccionar as fantasias.

Dona Florinda, como é conhecida, perdera a conta dos prêmios que ganhou nos carnavais. Quase todo ano, o bloco liderado por ela, conquistava o primeiro lugar. Ao lado do marido, Antonio Lourenço e dos filhos, ela não dava pausa nos quatro dias de folia com duas matinês.

Segundo Florinda, que concedeu entrevista à Revista Tradição, em 2009, as drogas e a violência fizeram o carnaval perder a graça. “No meu tempo, o lança-perfume era tolerado porque não era usado como droga”, disse. “Bebida alcoólica também tinha, mas os poucos que exageravam iam curtir o álcool lá fora”.

Florinda contou que os foliões punham a imaginação para funcionar. Uma das fantasias que ajudou a criar e fez sucesso foi inspirada nas cores do cigarro minister. “De tanta badalação que deu até um canal de TV veio filmar nosso baile”, ressaltou.

 

Por Airton Donizete

Fotos: Arquivo pessoal

 

Angelo Rigon

Jornalista em Maringá. Pioneiro em blog político, foi repórter e apresentador de programas de rádio e televisão, além de ter editado jornais e revistas. É comentarista da Jovem Pan Maringá.