Dia de 100 mil mortes… e a morte de dom Pedro Casaldáliga

Dia triste. Dia em que o Brasil registra 100 mil mortes pela covid-19. Dia em que me vejo prostrado diante de uma tragédia sem precedentes. Dia em que morre dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT). Uma referência na luta contra as injustiças sociais.
Sinto-me fraco, impotente, mas eis que sou desperto da minha inércia com um safanão. Uma força estranha me impulsiona. É o alento das palavras de dom Pedro. Quando o entrevistei, em 2007, na sua casinha de tijolos sem reboco e sem porta.
Quem entrava pela pequena sala, sem obstáculos passava pela cozinha e chegava à varanda. Ali ficava ele, sentado numa cadeira simples, de fios de plásticos coloridos, sempre solícito com índios, ribeirinhos e quem o procurasse.
Uma opção de vida. De um homem que veio da Catalunha, cruzou o Atlântico e nos anos 1960 foi viver naquele fim de mundo. Enfrentou gente poderosa, cujo pensamento é apenas lucro desmedido e a destruição da floresta.
Por algumas vezes, viu a morte de perto, mas nunca recuou. Para ele, a missão era o verdadeiro sentido do cristianismo. Nunca se calar frente às injustiças. Mesmo que elas se apresentem maiores que nossos meios de luta.
Lutava em nome da justiça. O “aqui” e o “agora” lhe eram sublimes. Não arredava pé até que justiça fosse feita. Sempre agiu assim naquela região inóspita, ainda mais naqueles anos de chumbo.
Ao término da entrevista, numa noite enluarada, em janeiro de 2007, ele me conduziu até o portão de balaústre do seu singelo quintal. Grande poeta que era declamou versos de “El hombre de la Mancha”: “Sonhar mais um sonho impossível/ Lutar quando é fácil ceder/ Vencer o inimigo invencível/ Negar quando a regra é vender”…
Abriu um sorriso e com a mão sobre minha cabeça, sentenciou: “Deus te abeçoe”.
(Foto: Donizete)
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