Trecho da reportagem “O avalista oculto da Covaxin”, de Ana Clara Costa, na piauí, sobre as ligações do advogado Marcos Tolentino (acima, com o presidente Bolsonaro e Ricardo Barros) com a empresa que deu garantia fajuta para a compra da vacina indiana:
Em setembro de 2020, o deputado Ricardo Barros foi um defensor público e ferrenho de uma ideia que feria de morte o ministro da Economia, Paulo Guedes, mas agradava ao amigo Tolentino: o uso de precatórios para financiar os gastos com o Renda Cidadã, a proposta do governo Bolsonaro para substituir e encorpar o Bolsa Família.
Precatórios são dívidas de governos com contribuintes que já transitaram em julgado no Judiciário e devem ser pagas. Como esse pagamento quase sempre é postergado pelos entes públicos, muitos credores, em geral servidores aposentados, acabam vendendo seus títulos precatórios a um mercado paralelo, com um grande deságio, pois preferem receber pouco ao risco de não receberem nada em vida. Os compradores de precatórios recebem, posteriormente, o valor cheio. A Benetti, de Tolentino, é uma importante detentora de precatórios, mais especificamente os títulos a serem recebidos por servidores do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Roraima (Sinter). O FIB Bank, por exemplo, tem seu portentoso capital social garantido por escrituras de imóveis e por uma carteira de precatórios ainda não testada, segundo a Junta Comercial. Esses ativos estariam indexados a um fundo de participações chamado Azurita.
Ao defender que o governo adiasse o pagamento de precatórios para usar o montante para custear o Renda Cidadã, Ricardo Barros desagradou o mercado financeiro, que enxergou ali indícios de pedalada fiscal e flexibilização do teto de gastos, mas agradou o mercado paralelo desses créditos. Quanto mais risco os contribuintes enxergam no pagamento dos títulos, maior o deságio tolerado na venda de seus precatórios a um comprador, como é o caso de Tolentino. No fim, o projeto do Renda Cidadã foi engavetado, mas Barros deixou rastros de seu apreço por esse instrumento. Nos bastidores, técnicos da Economia comentavam que os únicos beneficiados com tal medida seriam os vendedores de precatórios. Leia na íntegra.
(Foto: Redes sociais)