O caos que mora aqui
Por Victor Faria:
Há um problema que paira de forma consistente em todo extremismo. O desrespeito às instituições é sucedido de desrespeito pela vida. Toda retórica de liberdade de expressão, em função do ódio destilado, é uma motriz que leva a atos antidemocráticos, não republicanos e, mais grave, nazistas. Antes que seja acusado de desonestidade intelectual é necessário entender alguns conceitos, para não incorrer de interpretações pueris ou cegas por qualquer tipo de paixão intelectual.
Falar em nazismo é sempre algo muito delicado. Um período obscuro da história, mas que, nesse momento, não posso deixar de falar. Em Mein Kampf, livro escrito por Hitler e dividido em dois volumes, Fuher personifica nos judeus as mazelas do mundo. Aqui, ressalta-se um ponto importante do pensamento nazista: é necessário eleger um inimigo público e pouco importa o meio para derrubá-lo. Desde essa época, o perigo comunista e o marxismo já eram uma máxima.
O período histórico também não pode ser desconsiderado. Períodos de crises financeiras são arcabouços para fragilizar a moral em detrimento do mercado. Entenda-se mercado como necessidades econômicas que regem as práticas de estado e refletem na mesa de cada pessoa. Se falta comida, falta governo. Se falta governo, há um culpado. Destitui-se a partir de um grande inimigo nacional. No caso dos nazistas, os judeus.
Fomos doutrinados a tolerar. A tolerância, creio, é um pacto social que reflete a civilidade. Quanto menos bárbaro, mais se tolera. Por isso, cravo, sem titubear, que quanto mais boçal é a pessoa, menor é a capacidade de tolerar o oposto. A inversa, infelizmente, traz resultados pouco satisfatórios. Pessoas extremamente civilizadas tendem a entender e tolerar o intolerável. Essa ideia levou um dos pais da Escola Austríaca de Economia, Karl Popper, a desenvolver o paradoxo da tolerância. Em suma, tolerar o intolerável leva ao fim da tolerância. Há de se encontrar, na civilidade, um meio-termo.
Em uma leitura sumária – dentro de uma interpretação das atuais conjunturas – excesso de civilidade pode nos colocar em uma profunda barbárie. O estúpido brada e o coerente silencia. Por aqui, tal como na Alemanha Nazista, temos um inimigo eleito. Temos, há tempos, uma crise social. Em nome de liberdades individuais assassinamos a moral coletiva. O passo seguinte é um representante eleito desacreditar as demais instituições.
Culpa-se o parlamento pela falta de tato político e de sensibilidade coletiva. Culpa-se o judiciário pela falta de competência. Pronto. A semente do anti-republicanismo está plantada para se disseminar os atos antidemocráticos. Quando um líder descredita a composição da república e uma parcela da população acha essa ideia palatável, nasce a postura antidemocrática. E isso é perigoso.
De um lado, o inimigo está eleito. De outro, tolera-se o intolerável. Desacreditam-se as instituições. Se em outrora, eles trancaram os semelhantes – feito animais – em campos de concentração, hoje, bombas são arremessadas contra juízes, veneno e bombas são lançados em comícios de opositores e seus seguidores, câmara de gás é improvisada em viatura policial e tiros são rajados contra um aniversariante por causa do tema de sua festa. Quando uma ideia é plantada em escala, com o foco em projetos unicamente pessoais e para garantir os preconceitos institucionalizados, o problema se agrava.
O caos que se tem hoje não é um inoportuno ou um gracejo mal-intencionado. É um projeto. É uma ideia. E por ser uma ideia é perigosa. A república é forma como vestimos a democracia moderna. Democracia, no que lhe concerne, é a eleição da maioria em respeito às minorias. Entretanto, há inimigo escolhido e parte das massas está voraz. Também, há um algoz eleito. O discurso de ódio está decorado. Daqui para frente, não há o que se possa fazer.
Caos é um sistema onde tudo tende a se desorganizar. Em um sistema determinista, mesmo a mais profunda desorganização tem em sua intrínseca realidade a desorganização como organização. Para Platão, o caos é o estado geral desordenado e indiferenciado de elementos que antecede a intervenção divina. O caos que mora aqui é uma ideia plantada. Para vencer o caos, somente organização.
O rigor do que querem é exterminar o inimigo. O inimigo é quem pensa diferente. Podem bradar o ódio sem pudor. Mas não vão fazer a terra parar de girar. Não vão fazer as ondas pararem de bater contra a costa. E mais importante: não vão fazer a estrela se apagar – seja de Davi ou não. No fim, caos é medo e se não podemos vencer o medo, a quem venceremos?
(*) Victor Faria é jornalista. Publicado originalmente no HojeMais Maringá.
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