Bolsonarismo encarna o desespero patriarcal

De Fernando Gabeira, em O Globo:

A violência é estimulada de cima para baixo

A maioria dos leitores não tinha nascido ainda, e eu já cobria crimes políticos no Brasil. Um advogado de Minas, Danilo Sebe, me enviou o recorte de uma longa reportagem sobre o assassinato do deputado Nacip Raydan, em Santa Maria do Suaçuí. Isso foi em 1962.

Minhas retinas ainda não estavam fatigadas. Depois disso, acompanhei a morte do estudante Edson Luís, em 1968, viajei a Xapuri, no Acre, para cobrir o enterro de Chico Mendes, passei a noite em Anapu, no Pará, durante o velório de Dorothy Stang. Isso para mencionar apenas os casos em que há referências na história. Minhas reportagens sobre assassinato de vereadores na Baixada Fluminense caíram no limbo com suas vítimas anônimas.

Nos últimos tempos, cobri a morte de Marielle Franco e segui daqui as investigações em torno do assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira.

Apesar de toda a trajetória, não considero o assassinato do petista Marcelo Arruda apenas mais um caso. Neste momento da História do Brasil, há um fator decisivo: a violência é estimulada de cima para baixo.

Estamos colhendo os frutos amargos de uma política de extrema direita que não só glorifica o uso de armas, mas reduz ao máximo seu controle.

Não se pode reduzir a violência apenas ao uso de armas. Ela é ostensiva na linguagem (“vamos fuzilar a petralhada”), presente no tratamento às jovens repórteres, grotesca nos gestos que imitam a agonia de quem sente falta de ar por causa da Covid-19. Leia mais (para assinantes).

(Arte s/ foto PR)