Ao senador eleito Sergio Moro

Presidência? Esqueça. Procure ser um senador fiscalizador

Poderia dizer que fiquei profundamente decepcionado com sua postura na reta final da eleição para o Senado, e principalmente no segundo turno, quando, contrariando os seus princípios, acredito, se declarou tão bolsonarista quanto os mais radicais bolsonaristas.

Mas entendo, ou pelo menos procuro entender, a posição que ficou, após cometer um dos maiores erros de sua vida, o de deixar a magistratura para embarcar, literalmente, numa barca furada, que foi entrar para o governo Bolsonaro. Não lhe restou alternativa, para se eleger senador, a não ser fazer o que fez, repito, contrariando seus princípios, acredito.

Josias de Souza previu em artigo no dia 30 de outubro de 2018:

‘Um acerto dificilmente pode ser melhorado. Mas um erro sempre pode ser aperfeiçoado. Jair Bolsonaro namora a ideia de colocar Sergio Moro na função de ministro da Justiça. Seria um grande equívoco. O juiz da Lava Jato cogita aceitar o convite, informa um auxiliar do capitão. Seria um gigantesco absurdo. Uma coisa é aceitar eventual indicação de Bolsonaro para ocupar poltrona de ministro no Supremo. Todo magistrado sonha em chegar ao topo do Judiciário. Outra coisa bem diferente é trocar a prerrogativa de mandar prender poderosos pelo risco de ser mandato embora por um deles.
A seis dias do primeiro turno, Moro levantou o sigilo de um trecho da delação companheira de Antonio Palocci. Incorporada a um dos processos abertos contra Lula, a delação estimulou a suspeita de que o juiz interferiu na eleição para prejudicar o petismo.
Sergio Moro anotou em seu despacho: “…A farsa da invocação de perseguição política não tem lugar perante este juízo.” Concluído o segundo turno, se virar ministro de Bolsonaro, o juiz passará o resto da vida explicando por que ladrilhou com pedrinhas de brilhante a avenida que levou Bolsonaro ao Planalto. A Lava Jato jamais será a mesma.’

E prossigo (Akino): Concordei com Josias, mas depois cheguei a pensar que poderia ser bom. Imaginei que com o Coaf o senhor teria todos os deputados e até ministros do STF nas mãos e Bolsonaro poderia cumprir a promessa de não ceder às chantagens do congresso.

Mas eis que logo aconteceu, antes da posse, a descoberta, pelo próprio Coaf, do das rachadinhas, envolvendo Queiroz e Flávio Bolsonaro. Ali acabou sua autonomia e permanecer no governo começou a ficar insustentável.

Vamos resumir e concluir chegando ao ponto de voltar a precisar se dizer bolsonarista, para não correr o risco de ser derrotado por petistas de lado e bolsonaristas, por razões diferentes.

Até aí entendi. Mas aceitar o pedido da campanha do ’mito’, e trabalhar definitivamente pela eleição dele, foi demais.

Vou perdoar, porque me coloco no seu lugar. Garantiu 8 anos de trabalho e com alguma ‘aceitabilidade de colegas’, no Senado. Somado aos seus 22 de tempo na magistratura, chega a 30 e poderá se aposentar razoavelmente, com um pouco mais de tempo.

Aconselho-o a guardar metade dos salários do senhor e esposa e fazer uma economia para o dobro de tempo, caso não consigam reeleições.

Presidência? Esqueça. Procure ser um senador fiscalizador, sem criar muita confusão.

Minha gratidão pelo que fez, no combate à corrupção, e repito, o perdão no grande erro que cometeu e acabou sendo um dos responsáveis pelo fim da lava jato.

Boa sorte, na nova posição, no meio de muitas serpentes que encontrará em Brasília.