Crescer é sair do colo, mas nunca do coração


Ela desembarcou sorridente, confiante, resolvida. Era dona de si. Do mundo
A oportunidade se apresentava imperdível. Um período de seis meses de duração em uma universidade da Alemanha, aspiração presente na maioria dos doutorandos. Diferentes sentimentos se sobressaíram, porque a jovem sequer havia feito uma única viagem internacional. Sempre viveu no pequeno município onde nascera, em uma próspera região metropolitana do noroeste paranaense. Só pouco tempo antes da épica empreitada se viu como cliente assídua das companhias de transporte aéreo. Passaporte em dia, entrevista junto à embaixada bem sucedida, a burocracia da papelada exigida pelo programa governamental finalizada, eis que a destemida embarca levando além da bagagem, muitas expectativas e incertezas sobre a temporada no continente europeu. Fez-se acompanhar ainda da coragem, da obstinação e da resiliência, requisitos indispensáveis para a superação de contratempos pontuais como o idioma, a gastronomia e principalmente a cultura germânica, historicamente conservadora com suas tradições seculares.
Para quem está longe dos acontecimentos, cento e oitenta dias é um lapso de tempo considerado de curta duração, mas se torna uma eternidade para os diretamente envolvidos. Principalmente os familiares, que viram o passarinho bater asas para bem longe, em busca de realizações profissionais. Partiu resoluta, sem pestanejar, deixando para trás a parte do coração mais sensível, aquela com o poder de fazer fluir as emoções. É natural e perfeitamente salutar que se busque ideais em algum momento da existência, especialmente na juventude. A ascensão profissional demanda doses generosas de determinação, empenho, persistência e tantos outros sinônimos análogos, mesmo porque não se espera uma jornada tranquila e prazerosa nessas situações. Geralmente o caminho se mostra árido, pedregoso, repleto de obstáculos. As pedras menores serão retiradas com cautela e as de maior porte, contornadas com sabedoria. Os empecilhos pontuais se solucionam com técnica, conhecimento e eficiência. A vida ensina aos menos versados, seus segredos a cada alvorecer. E uma iniciativa dessa relevância tem a capacidade de agregar experiências e conhecimento singulares, que serão de grande valia no futuro.
Como era previsto, a adaptação ao novo ambiente temporário foi marcada pelo aprendizado diário e gradual. A recepção “calorosa” ficou a cargo das temperaturas negativas e neve persistente, uma novidade até então. Com a interação coloquial satisfatoriamente estabelecida, um dos desafios do imigrante é manter estabilidade emocional, com tantos sentimentos aflorados simultaneamente. Enfim, a estadia internacional se materializava em arquitetura, costumes, aromas, sabores e vocábulos. Tudo junto e misturado. Uma miscelânea de sensações, com indiscutível capacidade em consolidar positivamente a personalidade e o caráter, itens de porte obrigatório nas relações interpessoais.
E os dias se passaram. Implacavelmente lentos. Os contatos frequentes eram como analgésicos transitórios, um bálsamo milagroso a abrandar momentaneamente aquele inexplicável aperto no peito. Até que finalmente a alegria fez o coração bater em descompasso. Ela desembarcou sorridente, confiante, resolvida. Era dona de si. Do mundo. As incertezas foram deixadas para trás. Adquiriu sabedoria, conhecimento e experiência. Esteve longe fisicamente, mas muito perto nos pensamentos. Assim são os filhos, nossas eternas crianças. Elas crescem e saem do colo, mas nunca do coração.
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR
Foto: Jason Tuevs/Pexels