Telefone e maionese

E nada de o cara dizer o que queria. Só preâmbulo. Prolixíssimo preâmbulo. O meu amigo gemendo de cólica. E o sujeito esticando a prosa

Entrei descontraído no escritório de um amigo, pensando somente em trocar um abraço. Encontrei-o todavia nervoso, queixando-se da maionese que comera no almoço. Pediu licença para ir “desapertar-se”, porém o telefone tocou. Interurbano. Um cliente importante, de São Paulo. Com uma das mãos segurando a barriga, meu amigo resolveu atender. Seria uma conversa rápida. Anotar algum recado e dizer tchau. Do outro lado da linha, entretanto, o fulano não sabia da situação e encompridou o papo:

– Como vai nossa esplendorosa Maringá? Essas árvores, essas praças lindas, esses fantásticos ipês… Estou com muita saudade de tudo isso. Puxa… faz tempo não passo aí…

E nada de o cara dizer o que queria. Só preâmbulo. Prolixíssimo preâmbulo. O meu amigo gemendo de cólica. E o sujeito esticando a prosa.

–  Sabe? Tem um rapaz de Maringá que está em São Paulo fazendo um curso… Ele passa frequentemente aqui no meu escritório. Tenho, modéstia à parte, uma bela biblioteca e ele vem fazer pesquisas. Um moço de grande futuro.

– Sei, aparteou a vítima da maionese. Por favor, diga o que deseja, prometo providências imediatas. Estou aqui para servi-lo.

–  Pois é, o negócio é o seguinte… ah!… Fiquei sabendo que você vai passar as férias na praia. Aprecio o seu bom gosto, mas tome cuidado com as estradas… Como?… Não vai para a praia?… Vai pescar no Mato Grosso?… Puxa, rapaz, também sou louco por pescaria.

     E levou mais uns bons minutos narrando suas proezas de pescador, enquanto o pobre já não suportava o incômodo, suando frio, o rosto pálido, o olho voltado para a porta do banheiro.

– Desculpe, amigo, mas eu tenho uma reunião daqui a pouco, já estou atrasado, depois ligo pra você e conversaremos sem pressa.

– Entendo. Mas só quero lhe perguntar mais uma coisinha: como vai o tempo aí? Tenho um compadre que tem um tio que tem umas terras aí perto e espera colher uma boa safra. Burro fui eu, que perdi a oportunidade de comprar um sítio ao lado do dele. Na época era baratinho, agora está valendo umas vinte vezes mais. E você? Já tem sua fazenda? Não perca tempo, rapaz. Terra é sempre terra…

–  Certo… certo… Então ligo mais tarde… tchau-tchau…

–  Espere… quero só que você me faça um favorzinho…

–  Está bem, vou passar o telefone para a secretária. Ela anotará o recado. Desculpe a pressa… é que tenho de fato uma reunião me esperando.

Tarde demais. A essa altura o que ele precisava fazer mesmo no banheiro era simplesmente tomar um banho…


(Crônica publicada na edição de hoje do Jornal do Povo)

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