Como é o nome do Senhor?


“Na minha época, vendia remédio em farmácias. Hoje, vendem até coca-cola!”, disparou o velho. “Só falta vender cerveja”
Por Wilame Prado
O velho e o moço na fila do caixa da farmácia. Sempre cheias, em Maringá. O velho se permite causar congestionamento no comércio puxando papo, e o jovem enrubesce, não quer que as pessoas de trás na fila se aborreçam. Ele, o próprio jovem, também não quer perder “preciosos” segundos daquela manhã de temperaturas amenas ouvindo o velho homem.
“Na minha época, vendia remédio em farmácias. Hoje, vendem até coca-cola!”, disparou o velho. “Só falta vender cerveja”, brincou o jovem, que estava em busca de um estomazil para amainar uma ressaca causada por sonhos intranquilos. “As cervejas do começo, a gente se deu bem”, lembrou, o jovem, do cancioneiro de Tim Bernardes, ele, um antenado na cena indie musical do século 21. Ele nunca leu Kafka.
“O que é aquilo?”, inquiriu o velho. “Energéticos, Redbull. Hoje em dia, as farmácias são mercearias”, concluiu o jovem entendedor de marcas e costumes contemporâneos da sociedade.
E pensou por milésimos de segundos: “Conheço a garota-propaganda dessa farmácia, antes ninguém dava nada por ela e hoje está aqui, acolá, no outdoor, nos comerciais da tv”, invejou o jovem, bem relacionado, conhecedor de modelos e modinhas.
A funcionária no caixa, mais jovem ainda que o próprio Jovem da nossa história, optou por não doar sorrisos ao velho. Mas era tão linda, um pecado sem sorrir. E o sol começava a esquentar a vida de todos numa Maringá pós-Expoingá, todos, todos, aliviados com o término dos festejos tão apreciados pelos andejos.
“Meu primeiro emprego foi numa farmácia, eu tinha 10 anos de idade”, revelou sem ninguém perguntar o velho, orgulhoso por ser trabalhador desde a primeira infância.
Olhos úmidos, um boné da Cocamar na cabeça. As famosas coroas nos dentes. Duas canelas lisas de pelos. O tênis da caminhada. E o jovem, curioso, ávido, ligeiro, só teve tempo de ver um dos 3 itens comprados pelo velho: um tubo dental Sensodyne.
Sorrisos amarelos e a fila da farmácia-mercearia aumentando. O velho optou por não revelar os 11 dígitos do seu Cadastro de Pessoa Física para a aparentemente falida Nota Paraná. “Se minha esposa estivesse aqui, ela pediria CPF na nota! Ela é assim (fez um gesto fechando a mão), não perde um centavo”, sorriu, fanfarrão, o velho. “Hoje em dia não volta mais nada nessa Nota Paraná”, concluiu o jovem, um antenado das coisas paranaenses, praticamente um Bicho do Paraná.
“Meu pai tinha terra, e então logo saí da farmácia para trabalhar com a terra”, confidenciou o velho. E o jovem tentando se desvencilhar, tal qual Evander Holyfield desviando da derrota fatal, dos punhos mortais de Mike Tyson.
Ele, o jovem, só queria encontrar 200ml de água mineral para fazer diluir o bicarbonato de sódio (1.854mg), carbonato de sódio (400mg), ácido acetilsalicílico (325mg) e ácido cítrico (1.413mg) contidos na esfera efervescente do medicamento adquirido com apenas duas notas de dois reais e que lhe rendeu moedas de troco.
“Tivemos que voltar para a cidade. Eu passei num concurso. Trabalhei 33 anos na mesma instituição. Não fiquei rico, mas tive uma vida boa. Hoje a minha principal tarefa é: fazer nada. Mas de vez em quando a gente faz levantamento de copo e de espeto, ao lado da churrasqueira. Vai com Deus, meu filho”, finalizou o velho, percebendo a coceira social, a fobia de ter de ouvir alguém mais velho numa fila da farmácia enquanto todos vestem as máscaras da pressa e da raiva nos rostos.
O jovem pensou só depois. Já havia passado a sua azia e ele nunca mais encontraria aquele velho bom de papo. Mas ele, órfão de pai, carente de avós, refletiu que talvez pudesse ter sido bom esticar a conversa com o estranho da farmácia. Qual empresa ele trabalhou como servidor de carreira? Como foi já ter encarado o batente aos 10 anos num balcão de farmácia numa Maringá cheia de terra e mata? Qual o segredo da vida? Ou, pelo menos: “como é o nome do Senhor?”