A pedagogia da crise


Ex-vereador caiu atirando para posar de mártir, tentando evocar a altivez que nunca teve numa ação política torpe pautada no confronto e no constrangimento de seus adversários
Sete meses da nova legislatura do legislativo maringaense: sete meses de crise. Uma deposição do ex-presidente, uma nova presidência carregando polêmicas acerca dos gastos e perdendo sua própria base pluripartidária que o elegeu, e por fim, a cassação histórica que suprimiu o mandato da vereadora mais votada da história de Maringá por improbidade administrativa. Eis o retrato caótico desse longo inverno que atravessa a nova legislatura, que ainda não mostrou a que veio. Um aumento quantitativo que não se desvelou em aumento qualitativo. Pelo contrário, antigos vereadores admitem o profundo arrependimento com o voto pelo aumento. A fala é uníssona: o aumento rebaixou a qualidade dos trabalhos da casa. Irrompeu a lógica da economicidade que era um ethos administrativo consensual há tempos.
Sobre Lauer, há aí um episódio à parte: uma pedagogia inevitável, prenhe de algumas lições que a política têm dado à extrema direita, de Brasília a Maringá. Política é a arte da conciliação e da disputa. Conciliar, sentar com os adversários, comer com talher, pautar o contráditorio mas sem tornar a arena política um ringue de batalha. Se a política remete etimologicamente a pensar coletivamente os destinos da cidade, a pólis é o espaço da disputa da agenda, de concepções ideológicas, de projetos de sociedade.
Lauer sempre se viu como um lobo solitário, antissistema, estando dentro do sistema, aliás, soterrada até o pescoço. A extrema direita nunca entendeu a lição basilar da política, o pêndulo entre a conciliação e a disputa. Aventaram-se como outsiders, antissistema, moralistas inquisidores, arautos de um Brasil glorioso evocando um passado que nunca existiu, um passado soturno que matava-se e torturava-se adversários políticos nos porões da ditadura. Demonstraram ser, não apenas o sistema, mas o mais torpe e baixo sistema político. Estão colhendo os frutos. A direita mais astuta e caronista, dos governadores pré-presidenciáveis, orientada por velhas raposas e aves de rapina com visão de longo alcance, já entendeu por onde o leme aponta e buscam distanciamento, ainda que sutil.
Descobriram o óbvio, o que a ciência política preconiza há muito: a política é a arte de conquistar e manter o poder. Voltando ao dia de ontem: Lauer saiu isolada. À exceção de Bianchini e Malvezzi, nem vereadores que batem bumbo para suas bandeiras, bolsonaristas, foram ao seu socorro.
Conseguiu juntar contra si a direita, a esquerda e o centro. Comprou briga com os 3 maiores grupos políticos de Maringá: os Barros, os Verri e os Maias.
Caiu atirando para posar de mártir, tentando evocar a altivez que nunca teve numa ação política torpe pautada no confronto e no constrangimento de seus adversários. Contransgia até mesmo a imprensa, elegia poucos veículos para vociferar suas bravatas. Saiu isolada pelas portas dos fundos. Um velório político sem corpo. A vigilância excessiva da sessão derradeira cuidou do normal. Vida de gado. A política não perdoa! Que a terra lhe seja leve.
Foto: Marquinhos Oliveira/CMM