Tribo’s Bar: o fim de uma era


Um ícone da cena underground maringaense anuncia seu encerramento
Juninho, figura lendária do rock maringaense e dono do Tribo’s Bar, anunciou nas redes sociais dias atrás o encerramento das atividades do estabelecimento: um bar que, mais do que um ponto de encontro, se tornou mito. A notícia repercutiu imediatamente, mobilizando a imprensa e, sobretudo, a memória afetiva de quem viveu ali parte da juventude.
Nostalgia, saudade e um certo gosto amargo (e ressaca) de fim de festa tomaram conta das mensagens.
Em uma cidade moldada pela especulação imobiliária, pela lógica da segregação urbana e pelo domínio cultural do sertanejo universitário, o Tribo’s Bar foi trincheira. Resistência. Um refúgio anticíclico. O bar cumpriu uma missão não apenas comercial, mas comportamental: uma cidade deve abrigar a todos. Todas as tribos e manifestações de uma juventude inquieta e pensante, sedenta por pertencimento.
Porque se o rock é mais que música, é atitude, inquietação, fúria e poesia. O Tribo’s era mais que um bar: era um território simbólico de desobediência, onde se formaram amizades, histórias, bandas e identidades.
Há um consenso silencioso entre seus frequentadores: a fase mítica foi a da casinha de madeira na Avenida Cidade de Leiria. Ali, bicicletas alongadas se espalhavam pelas calçadas. Jovens da periferia dividiam mesa com roqueiros de classe média. O cardápio era dava o tom da identidade soturna e irreverente do bar: Marvada, KisiFoda, El Diablo Green, e claro, a tradicional Antárctica azulzinha, sempre trincando. Etilismo raiz, sem a nutelagem gourmet das cervejas artesanais e drinks coloridos superfaturados.
Com a mudança para a Avenida Cerro Azul, parte da clientela ficou pelo caminho. Não por desamor: mas porque crescemos. Fomos engolidos pela vida adulta, pelos boletos, pelos crachás, pelas rotinas de escritório ou pela burocracia do serviço público. A turma virou “gente”. Mas o Tribo’s manteve o espírito, ainda que sem a aura selvagem dos anos iniciais.
O bar foi também palco e incubadora. Por ele passaram nomes, sons e experimentos. Seu DNA era o heavy metal, mas havia espaço para o grunge, o punk, o hard rock, o reggae o rap, o trap e até para a música eletrônica. Uma convivência rara entre metaleiros, punks e rappers e congêneres: um ecossistema cultural improvável, mas vibrante.
Trinta anos depois, a noite maringaense mudou. Outros bons bares alternativos surgiram: Porão, Don Beer, Groove, cada qual abrigando fragmentos daquela juventude. Havia até uma divisão tácita: MPB Bar para os alternativos mais arrumadinhos; Tribo’s para os rebeldes, periféricos ou simplesmente mais fiéis à contracultura.
No ano em que Ozzy Osbourne se despediu, o Tribo’s também encerra seu ciclo. Ícone que era, deixa seu nome cravado nos corações selvagens de quem um dia gritou, bebeu, amou e se perdeu ao som de guitarras distorcidas.
“Os bons meninos de hoje foram rebeldes em outra estação”. E o Tribo’s foi sua casa.
Num 2025 em que Ozzy disse “não tenho muito tempo” e a despedida enfim veio, Maringá também vê partir seu maior bastião do rock.
Personagens e lugares se vão. Mas ficam gravados onde nada é demolido: na memória.
“Mama, I’m coming home.”
(*) *Joel Cavalcante é sociólogo, professor e comunicador.
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