Aguarde: Maringá e Carmem na Ópera House

Talvez esteja errado, mas não me ocorre que a arquitetura do centro de evento prevê um palco adequado para um espetáculo de ópera

Será que em algum momento de suas vidas, muitas delas ainda breves pela maturidade do tempo, algum vereador seu deu a oportunidade de assistir uma ópera ao vivo? Se assim fosse, o projeto de renomear a obra de Niemeyer em andamento no centro da cidade seria rejeitado. Isso por que centro de eventos é uma coisa e o espetáculo artístico é outra totalmente diferente.

Mário Hossokawa, o presidente da Câmara mais racional na história financeira do Legislativo, que contrasta com o perfil perdulário da atual mandatária do cargo, erra ao justificar a proposta evocando dois templos referenciais da ópera: o Palais (leia-se pelê em francês) Garnier, em Paris, e a Ópera House, em Sydney, na Austrália. Há exageros de todos os tamanhos na comparação.

Essencialmente, um teatro para execução de ópera dispõe de um fosso para posicionamento da orquestra, cuja função é acrescentar tom dramático à interpretação a partir da partitura. Na prática, é a trilha sonora do espetáculo. Talvez esteja errado, mas não me ocorre que a arquitetura do centro de evento prevê um palco adequado para um espetáculo de ópera.

Sobre o Palais Garnier, outrora apenas Ópera de Paris por sediar os espetáculos da Ópera Nacional de Paris, a comparação do vereador soa hiperbólica e absolutamente desconectada da história que associa Napoleão III ao arquiteto Charles Garnier – o primeiro idealizou e o segundo projetou. Não é diferente das velas brancas que identificam a Ópera de Sydney.

Imagens: Sydney Opera House/Palais Garnier/PMM

O centro de eventos foi projetado para ser o que é: um centro de eventos, com as características de palco que, segundo se sabe, será reversível para ampliar a capacidade da área da recepção. Na prática, é tão somente um palco com evidentes virtudes para cumprir a missão de abrigar eventos e atividades afins. Já para atender às exigências de um espetáculo de ópera… Sei não!

Ao misturar congressos e encontros com eventual vocação do espaço para ópera, o que demandaria características de espaço de grande porte, o que inclui o citado fosso para orquestra, o vereador se enreda numa argumentação no mínimo frágil. Seria mais fácil montar uma ópera ao ar livre do que dentro do centro de eventos. Aliás, Maringá já teve algum espetáculo de ópera do porte sugerido por agente político?