Cadê os R$ 3 milhões, Jessicão?


Em Londrina, vereadora viajou com recursos públicos para Brasília, onde se filiou ao PL
Em política brasileira, dinheiro público tem um curioso talento: às vezes aparece primeiro no discurso… e só depois — se aparecer — nos registros oficiais.
A vereadora Jessicão anunciou publicamente que sua viagem a Brasília teria resultado em R$ 3 milhões para a saúde de Londrina. Um número redondo, bonito de se ouvir, perfeito para vídeos e declarações nas redes sociais.
O problema é que, quando a pergunta saiu do campo da propaganda e entrou no território dos documentos, o dinheiro simplesmente evaporou.
Questionada oficialmente, a Secretaria Municipal de Saúde informou não ter localizado qualquer protocolo, empenho ou registro desses recursos nos sistemas institucionais. Nem no InvestSUS, nem em outros mecanismos de acompanhamento de transferências.
Traduzindo para o português claro: até agora, os R$ 3 milhões existem apenas na fala da vereadora. E aqui nasce uma dúvida que não deveria existir em uma administração pública séria: os R$ 3 milhões vieram para Londrina — ou vieram apenas como álibi para a questionável viagem da vereadora a Brasília?
A pergunta não é capricho político. Ela surge porque a própria viagem a Brasília já se encontra sob questionamento público. A parlamentar recebeu passagens e diárias com a justificativa oficial de buscar recursos e projetos para o município. No entanto, registros amplamente divulgados mostram sua participação apenas em atos partidários, inclusive, em evento de filiação política.
Se houve trabalho institucional, ótimo. Se houve captação de recursos, melhor ainda. Mas recurso público não vive de anúncio — vive de documento.
Se os R$ 3 milhões existem, basta algo muito simples: apresentar o protocolo, o empenho, o convênio ou o registro da indicação parlamentar. Até lá, a situação é constrangedora para quem garganteou-o.
Porque quando o dinheiro público aparece no discurso, mas não no sistema, a dúvida deixa de ser política e passa a ser moral. E a régua da moralidade pública — aquela inscrita no artigo 37 da Constituição — costuma ser menos paciente que a retórica.
Portanto, a pergunta permanece de pé, esperando resposta: Cadê os R$ 3 milhões, Jessicão? Se o recurso existe, mostre. Se não existe, trate de trabalhar para que exista. Porque promessa de garganta não paga exame, não faz cirurgia e não sustenta hospital. Mas documento assinado, esses, abrem até PAMs…
Publicado originalmente aqui.
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